terça-feira, 18 de outubro de 2011

AS POSSIBILIDADES DAS REDES DE APRENDIZAGEM



Hoje temos um número significativo de professores desenvolvendo projetos e atividades mediados por tecnologias. Mas a grande maioria das escolas e professores ainda está tateando sobre como utilizá-las adequadamente. A apropriação das tecnologias pelas escolas passa por três etapas, até o momento. Na primeira, as tecnologias são utilizadas para melhorar o que já se vinha fazendo, como o desempenho, a gestão, para automatizar processos e diminuir custos. Na segunda etapa, a escola insere parcialmente as tecnologias no projeto educacional. Cria uma página na Internet com algumas ferramentas de pesquisa e comunicação, divulga textos e endereços interessantes, desenvolve alguns projetos, há atividades no laboratório de informática, mas mantém intocados: estrutura de aulas, disciplinas e horários. Na terceira, que começa atualmente, com o amadurecimento da sua implantação e o avanço da integração das tecnologias, as universidades e escolas repensam o seu projeto pedagógico, o seu plano estratégico e introduzem mudanças significativas como a flexibilização parcial do currículo, com atividades a distância combinadas as presenciais.
Os professores, em geral, ainda estão utilizando as tecnologias para ilustrar aquilo que já vinham fazendo, para tornar as aulas mais interessantes. Mas ainda falta o domínio técnico-pedagógico que lhes permitirá, nos próximos anos, modificar e inovar os processos de ensino e aprendizagem.
As redes, principalmente a Internet, estão começando a provocar mudanças profundas na educação presencial e a distância. Na presencial, desenraizam o conceito de ensino-aprendizagem localizado e temporalizado. Podemos aprender desde vários lugares, ao mesmo tempo, on e off-line, juntos e separados. Como nos bancos, temos nossa agência (escola), que é nosso ponto de referência; só que agora não precisamos ir até lá o tempo todo para poder aprender.
As redes também estão provocando mudanças profundas na educação à distância (EAD). Antes a EAD era uma atividade muito solitária e exigia muita autodisciplina. Agora, com as redes, a EAD continua como uma atividade individual, combinada com a possibilidade de comunicação instantânea, de criar grupos de aprendizagem, integrando a aprendizagem pessoal com a grupal.
A educação presencial está incorporando tecnologias, funções, atividades que eram típicas da educação à distância, e a EAD está descobrindo que pode ensinar de forma menos individualista, mantendo um equilíbrio entre a flexibilidade e a interação.

Blogs e Flogs
Quando focamos mais a aprendizagem dos alunos do que o ensino, a publicação da produção deles se torna fundamental. Recursos como o portfólio, onde os alunos organizam o que produzem e o disponibilizam para consultas, são cada vez mais utilizados. Os blogs, fotologs e videologs são recursos muito interativos de publicação com possibilidade de fácil atualização e participação de terceiros.
Os blogs, flogs (fotologs ou videologs) são utilizados mais pelos alunos que pelos professores, principalmente como espaço de divulgação pessoal, de mostrar a identidade, onde se misturam narcisismo e exibicionismo (em diversos graus). Atualmente há um uso crescente dos blogs por professores dos vários níveis de ensino, incluindo o universitário. Os blogs permitem a atualização constante da informação pelo professor e pelos alunos, favorecem a construção de projetos e pesquisas individuais e em grupo, a divulgação de trabalhos. Com a crescente utilização de imagens, sons e vídeos, os flogs têm tudo para explodir na educação e integrarem-se com outras ferramentas tecnológicas de gestão pedagógica. As grandes plataformas de educação à distância ainda não descobriram e incorporaram o potencial dos blogs e flogs.
A possibilidade dos alunos se expressarem, tornarem suas idéias e pesquisas visíveis, confere uma dimensão mais significativa aos trabalhos e pesquisas acadêmicos. A Internet possui hoje inúmeros recursos que combinam publicação e interação, através de listas, fóruns, chats, blogs. Existem portais de publicação mediados, onde há algum tipo de controle e existem outros abertos, baseados na colaboração de voluntários. O site www.wikipedia.org/ traz um dos esforços mais notáveis no mundo inteiro de divulgação do conhecimento. Milhares de pessoas contribuem para a elaboração de enciclopédias sobre todos os temas, em várias línguas. Qualquer pessoa pode publicar e editar o que outras pessoas colocaram. Só em português foram divulgados mais de 30 mil artigos na wikipedia. Com todos os problemas envolvidos, a idéia de que o conhecimento pode ser co-produzido e divulgado é revolucionária e nunca antes tinha sido tentada da mesma forma e em grande escala.

A Escola em Conexão com o Mundo
A escola com as redes eletrônicas se abre para o mundo, o aluno e o professor se expõem, divulgam seus projetos e pesquisas, são avaliados por terceiros, positiva e negativamente. A escola contribui para divulgar as melhores práticas, ajudando outras escolas a encontrar seus caminhos. A divulgação hoje faz com que o conhecimento compartilhado acelere as mudanças necessárias, agilize as trocas entre alunos, professores, instituições. A escola sai do seu casulo, do seu mundinho e se torna uma instituição onde a comunidade pode aprender contínua e flexivelmente. Destaco, por exemplo, a importância do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) de Chicago, que disponibiliza todo o conteúdo dos seus cursos em várias línguas, facilitando o acesso de centenas de milhares de alunos e professores a materiais avançados e sistematizados, disponíveis on-line http://www.universiabrasil.net/mit/. Alunos, professores, a escola e a comunidade se beneficiam. Atualmente, a maior parte das teses e dos artigos apresentados em congressos está publicada na Internet. O estar no virtual não é garantia de qualidade (esse é um problema que dificulta a escolha), mas amplia imensamente as condições de aprender, de acesso, de intercâmbio, de atualização. Tanta informação dá trabalho e nos deixa ansiosos e confusos. Mas é muito melhor do que acontecia antes da Internet, quando só uns poucos privilegiados podiam viajar para o exterior e pesquisar nas grandes bibliotecas especializadas das melhores universidades. Hoje podemos fazer praticamente o mesmo sem sair de casa.
Os professores podem ajudar o aluno incentivando-o, a saber, perguntar, a enfocar questões importantes, a ter critérios na escolha de sites, de avaliação de páginas, a comparar textos com visões diferentes. Os professores podem focar mais a pesquisa do que dar respostas prontas, ou aulas todas acabadas. Podem propor temas interessantes e caminhar dos níveis mais simples de investigação para os mais complexos; das páginas mais coloridas e estimulantes para as mais abstratas; dos vídeos e narrativas concretas para os contextos mais abrangentes e assim ajudar a desenvolver um pensamento arborescente, com rupturas sucessivas e uma reorganização semântica contínua.
Uma das formas mais interessantes de desenvolver pesquisa em grupo na Internet é o webquest. Trata-se de uma atividade de aprendizagem que aproveita a imensa riqueza de informações que, dia a dia, cresce na Internet. Resolver uma webquest é um processo de aprendizagem atraente, porque envolve pesquisa, leitura, interação, colaboração e criação de um novo produto a partir do material e idéias obtidas. A webquest propicia a socialização da informação: por estar disponível na Internet, pode ser utilizada, compartilhada e até reelaborada por alunos e professores de diferentes partes do mundo. O problema da pesquisa não está na Internet, mas na maior importância que a escola dá ao conteúdo programático do que à pesquisa como eixo fundamental da aprendizagem.
O processo de mudança será mais lento do que muitos imaginam. Iremos mudando aos poucos, tanto no presencial como na educação à distância. Há uma grande desigualdade econômica, de acesso, de maturidade, de motivação das pessoas. Alguns estão prontos para a mudança, outros muitos não. É difícil mudar padrões adquiridos (gerenciais, atitudinais) das organizações, governos, dos profissionais e da sociedade.
 Ensinar com as novas mídias será uma revolução, se mudarmos simultaneamente os paradigmas convencionais do ensino, que mantêm distantes professores e alunos. Caso contrário conseguiremos dar um verniz de modernidade, sem mexer no essencial. A Internet é um novo meio de comunicação, ainda incipiente, mas que pode ajudar-nos a rever, a ampliar e a modificar muitas das formas atuais de ensinar e de aprender.

Especialista em mudanças na educação presencial e a distância

Texto adaptado do capítulo 4: A educação que desejamos: novos desafios e como chegar lá, da Editora Papirus, p.89-111)

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

ENSINO E EDUCAÇÃO DE QUALIDADE (!?)




Há uma preocupação com ensino de qualidade mais do que com a educação de qualidade. Ensino e educação são conceitos diferentes.
No ensino se organizam uma série de atividades didáticas para ajudar os alunos a que compreendam áreas específicas do conhecimento (ciências, história, matemáticas).
Na educação o foco, além de ensinar, é ajudar a integrar ensino e vida, conhecimento e ética, reflexão e ação, a ter uma visão de totalidade.
Fala-se muito de ensino de qualidade. Muitas escolas e universidades são colocadas no pedestal, como modelos de qualidade. Na verdade, em geral, não temos ensino de qualidade. Temos alguns cursos, faculdades, universidades com áreas de relativa excelência. Mas o conjunto das instituições de ensino está muito distante do conceito de qualidade.

O ensino de qualidade envolve muitas variáveis:
  1. Organização inovadora, aberta, dinâmica. Projeto pedagógico participativo.
  2. Docentes bem preparados intelectual, emocional, comunicacional e eticamente. Bem remunerados, motivados e com boas condições profissionais.
  3. Relação efetiva entre professores e alunos que permita conhecê-los, acompanhá-los, orientá-los.
  4. Infra-estrutura adequada, atualizada, confortável. Tecnologias acessíveis, rápidas e renovadas.
  5. Alunos motivados, preparados intelectual e emocionalmente, com capacidade de gerenciamento pessoal e grupal.
            O ensino de qualidade é muito caro, por isso pode ser pago por poucos ou tem que ser amplamente subsidiado e patrocinado. Poderemos criar algumas instituições de excelência. Mas a grande maioria demorará décadas para evoluir até um padrão aceitável de excelência. Temos, no geral, um ensino muito mais problemático do que é divulgado. Mesmo as melhores universidades são bastante desiguais nos seus cursos, metodologias, forma de avaliar, projetos pedagógicos, infra-estrutura. Quando há uma área mais avançada em alguns pontos é colocada como modelo, divulgada externamente como se fosse o padrão de excelência de toda a universidade. Vende-se o todo pela parte e o que é fruto às vezes de alguns grupos, lideranças de pesquisa, como se fosse generalizado em todos os setores da escola, o que não é verdade.
            As instituições vendem externamente os seus sucessos - muitas vezes de forma exagerada - e escondem os insucessos, os problemas, as dificuldades. Temos um ensino em que predomina a fala massiva e massificante, um número excessivo de alunos por sala, professores mal preparados, mal pagos, pouco motivados e evoluídos como pessoas. Temos bastantes alunos que ainda valorizam mais o diploma do que o aprender, que fazem o mínimo (em geral) para ser aprovados, que esperam ser conduzidos passivamente e não exploram todas as possibilidades que existem dentro e fora da instituição escolar. A infra-estrutura costuma ser inadequada. Salas barulhentas, pouco material escolar avançado, tecnologias pouco acessíveis à maioria. O ensino está voltado, em boa parte, para o lucro fácil, aproveitando a grande demanda que existe, com um discurso teórico (documentos) que não se confirma na prática. Há um predomínio de metodologias pouco criativas; mais marketing do que real processo de mudança. É importante procurar o ensino de qualidade, porém consciente de que é um processo longo, caro e menos lucrativo do que as instituições estão acostumadas.
            Nosso desafio maior é caminhar para uma educação de qualidade, que integre todas as dimensões do ser humano. Para isso precisamos de pessoas que façam essa integração em si mesma do sensorial, intelectual, emocional, ético e tecnológico, que transitem de forma fácil entre o pessoal e o social. E até agora encontramos poucas pessoas que estejam prontas para a educação com qualidade.

José Manuel Moran - Especialista em projetos inovadores na educação presencial e a distância
Texto publicado no livro Novas Tecnologias e Mediação Pedagógica, 12ª ed. Campinas: Papirus, p.12

terça-feira, 30 de agosto de 2011

ADOLESCÊNCIA

O que é adolescência? 
Adolescência é uma etapa intermediária do desenvolvimento humano, entre a infância e a fase adulta. Este período é marcado por diversas transformações corporais, hormonais e até mesmo comportamentais. Não se pode definir com exatidão o início e fim da adolescência (ela varia de pessoa para pessoa), porém, na maioria dos indivíduos, ela ocorre entre os 10 e 20 anos de idade (período definido pela OMS – Organização Mundial da Saúde).

Adolescência e Puberdade
Muitas pessoas confundem adolescência com puberdade. A puberdade é a fase inicial da adolescência, caracterizada pelas transformações físicas e biológicas no corpo dos meninos e meninas. É durante a puberdade (entre 10 e 13 anos entre as meninas e 12 e 14 entre os meninos) que ocorre o desenvolvimento dos órgãos sexuais. Estes ficam preparados para a reprodução. Durante a puberdade, os meninos passam pelas seguintes mudanças corporais e biológicas: aparecimento de pêlos pubianos, crescimento do pênis e testículos, engrossamento da voz, crescimento corporal, surgimento do pomo-de-adão e primeira ejaculação.
Entre as meninas, as mudanças mais importantes são: começo da menstruação (a primeira é chamada de menarca), desenvolvimento das glândulas mamárias, aparecimento de pêlos na região pubiana e axilas e crescimento da região da bacia.

Hormônios e Comportamento
Durante a adolescência ocorrem significativas mudanças hormonais no corpo. Além de favorecer o aparecimento de acnes, estes hormônios acabam influenciando diretamente no comportamento dos adolescentes. Nesta fase, os adolescentes podem variar muito e rapidamente em relação ao humor e comportamento. Agressividade, tristeza, felicidade, agitação, preguiça são comuns entre muitos adolescentes neste período.
Por se tratar de uma fase difícil para os adolescentes, é importante que haja compreensão por parte de pais, professores e outros adultos. O acompanhamento e o diálogo neste período são fundamentais. Em casos de mudanças severas (comportamentais ou biológicas) é importante o acompanhamento de um médico e/ou psicólogo.

Socialização
Uma marca comum da maioria dos adolescentes é a necessidade de fazer parte de um grupo. As amizades são importantes e dão aos adolescentes a sensação de fazer parte de um grupo de interesses comuns.

Gravidez na Adolescência
No Brasil atual, a gravidez precoce tem se transformado num grande problema de saúde pública. Com poucas informações e uma vida sexual ativa cada vez mais precoce, muitas adolescentes estão engravidando numa época da vida em que se encontram despreparadas para assumir as responsabilidades de mãe. Ao se tornarem mães, estas adolescentes acabam deixando de lado uma importante fase de desenvolvimento (algumas até mesmo abandonam os estudos). Mais preocupante são aquelas que buscam o aborto, tirando a vida de um ser e colocando em risco suas próprias vidas. 

www.suapesquisa.com/.../adolescencia.htm

quarta-feira, 20 de julho de 2011

AS MÍDIAS NA EDUCAÇÃO



“A simples introdução dos meios e das tecnologias na escola pode ser a forma mais enganosa de ocultar seus problemas de fundo sob a égide da modernização tecnológica. O desafio é como inserir na escola um ecossistema comunicativo que contemple ao mesmo tempo: experiências culturais heterogêneas, o entorno das novas tecnologias da informação e da comunicação, além de configurar o espaço educacional como um lugar onde o processo de aprendizagem conserve seu encanto”.
Jesús Martín Barbero.
Frase do seu livro: Heredando el Futuro.Pensar la Educación desde la Comunicación, in Nómadas, Boggotá, septiembre de 1996, n. 5, p. 10-22.

As Mídias Educam

Estamos deslumbrados com o computador e a Internet na escola e vamos deixando de lado a televisão e o vídeo, como se já estivessem ultrapassados, não fossem mais tão importantes ou como se já dominássemos suas linguagens e sua utilização na educação.
A televisão, o cinema e o vídeo, CD ou DVD - os meios de comunicação audiovisuais - desempenham, indiretamente, um papel educacional relevante. Passam-nos continuamente informações, interpretadas; mostram-nos modelos de comportamento, ensinam-nos linguagens coloquiais e multimídia e privilegiam alguns valores em detrimento de outros.
            A informação e a forma de ver o mundo predominante no Brasil provêm fundamentalmente da televisão. Ela alimenta e atualiza o universo sensorial, afetivo e ético que crianças e jovens – e grande parte dos adultos - levam a para sala de aula. Como a TV o faz de forma mais despretensiosa e sedutora, é muito mais difícil para o educador contrapor uma visão mais crítica, um universo mais  mais abstrato, complexo e na contramão da maioria como a escola se propõe a fazer.
A TV fala da vida, do presente, dos problemas afetivos - a fala da escola é muito distante e intelectualizada - e fala de forma impactante e sedutora - a escola, em geral, é mais cansativa, concorda?. O que tentamos contrapor na sala de aula, de forma desorganizada e monótona, aos modelos consumistas vigentes, a televisão, o cinema, as revistas de variedades e muitas páginas da Internet o desfazem nas horas seguintes. Nós mesmos como educadores e telespectadores sentimos na pele a esquizofrenia das visões contraditórias de mundo e das narrativas (formas de contar) tão diferentes dos meios de comunicação e da escola.
Percebeu que na procura desesperada pela audiência imediata e fiel, os meios de comunicação desenvolvem estratégias e fórmulas de sedução mais e mais aperfeiçoadas: o ritmo alucinante das transmissões ao vivo, a linguagem concreta, plástica, visível?. Mexem com o emocional, com as nossas fantasias, desejos, instintos. Passam com incrível facilidade do real para o imaginário, aproximando-os em fórmulas integradoras, como nas telenovelas.
Em síntese, os Meios são interlocutores constantes e reconhecidos, porque competentes, da maioria da população, especialmente da infantil. Esse reconhecimento significa que os processos educacionais convencionais e formais como a escola não podem voltar às costas para os meios, para esta iconosfera tão atraente e, em conseqüência, tão eficiente. A maior parte do referencial do mundo de crianças e jovens provém da televisão. Ela fala da vida, do presente, dos problemas afetivos - a escola é muito distante e abstrata - e fala de forma viva e sedutora - a escola, em geral, é mais cansativa.
As crianças e jovens se acostumaram a se expressar de forma polivalente, utilizando à dramatização, o jogo, a paráfrase, o concreto, a imagem em movimento. A imagem mexe com o imediato, com o palpável. A escola desvaloriza a imagem e essas linguagens como negativas para o conhecimento. Ignora a televisão, o vídeo; exige somente o desenvolvimento da escrita e do raciocínio lógico. É fundamental que a criança aprenda a equilibrar o concreto e o abstrato, a passar da espacialidade e contigüidade visual para o raciocínio seqüencial da lógica falada e escrita. Não se trata de opor os meios de comunicação às técnicas convencionais de educação, mas de integrá-los, de aproximá-los para que a educação seja um processo completo, rico, estimulante. A escola precisa observar o que está acontecendo nos meios de comunicação e mostrá-lo na sala de aula, discutindo-o com os alunos, ajudando-os a que percebam os aspectos positivos e negativos das abordagens sobre cada assunto.
Precisamos, em conseqüência, estabelecer pontes efetivas entre educadores e meios de comunicação. Educar os educadores para que, junto com os seus alunos, compreendam melhor o fascinante processo de troca, de informação-ocultamento-sedução, os códigos polivalentes e suas mensagens. Educar para compreender melhor seu significado dentro da nossa sociedade, para ajudar na sua democratização, onde cada pessoa possa exercer integralmente a sua cidadania.
Em que níveis podem ser pensados a relação Comunicação, Meios de Comunicação e Escola? Entendemos que esta pode ser pensada em três níveis:
1.      organizacional
2.      de conteúdo
3.      comunicacional
- no nível organizacional: uma escola mais participativa, menos centralizadora, menos autoritária, mais adaptada a cada indivíduo. Para isso, é importante comparar o nível do discurso - do que se diz ou se escreve - com a práxis - com as efetivas expressões de participação.
- no nível de conteúdo: uma escola que fale mais da vida, dos problemas que afligem os jovens. Tem que preparar para o futuro, estando sintonizada com o presente. É importante buscar nos meios de comunicação abordagens do quotidiano e incorporá-las criteriosamente nas aulas.
- no nível comunicacional: conhecer e incorporar todas as linguagens e técnicas utilizadas pelo homem contemporâneo. Valorizar as linguagens audiovisuais, junto com as convencionais.
Tem-se enfatizado a questão do conhecimento como essencial para uma boa educação. É básico ajudar o educando a desenvolver sua(s) inteligência(s), a conhecer melhor o mundo que o rodeia. Por outro lado, fala-se da educação como desenvolvimento de habilidades: "Aprender a aprender", saber comparar, sintetizar, descrever, se expressar.
Desenvolver a inteligência, as habilidades e principalmente, as atitudes. Ajudar o educando a adotar atitudes positivas, para si mesmo e para os outros. Aqui reside o ponto crucial da educação: ajudar o educando a encontrar um eixo fundamental para a sua vida, a partir do qual possa interpretar o mundo (fenômenos de conhecimento), desenvolva habilidades específicas e tenha atitudes coerentes para a sua realização pessoal e social.
A transmissão de informação é a tarefa mais fácil e onde as tecnologias podem ajudar o professor a facilitar o seu trabalho. Um simples CD-ROM contém toda a Enciclopédia Britânica, que também pode ser acessada on line pela Internet. O aluno nem precisa ir à escola para buscar as informações. Mas para interpretá-las, relacioná-las, hierarquizá-las, contextualizá-las, só as tecnologias não serão suficientes. O professor o ajudará a questionar, a procurar novos ângulos, a relativizar dados, a tirar conclusões.
Que outras contribuições as tecnologias podem dar ao professor? As tecnologias também ajudam a desenvolver habilidades, espaços-temporais, sinestésicas, criadoras. Mas o professor é fundamental para adequar cada habilidade a um determinado momento histórico e a cada situação de aprendizagem.
As tecnologias são pontes que abrem a sala de aula para o mundo, que representam, medeiam o nosso conhecimento do mundo. São diferentes formas de representação da realidade, de forma mais abstrata ou concreta, mais estática ou dinâmica, mais linear ou paralela, mas todas elas, combinadas, integradas, possibilitam uma melhor apreensão da realidade e o desenvolvimento de todas as potencialidades do educando, dos diferentes tipos de inteligência, habilidades e atitudes.
As tecnologias permitem mostrar várias formas de captar e mostrar o mesmo objeto, representando-o sob ângulos e meios diferentes: pelos movimentos, cenários, sons, integrando o racional e o afetivo, o dedutivo e o indutivo, o espaço e o tempo, o concreto e o abstrato.
A educação é um processo de construção da consciência crítica. Como então se dá esse processo? Essa construção começa com a problematização dos dados que nos chegam direta e indiretamente - através dos meios, por exemplo - recontextualizando-os numa perspectiva de conjunto, totalizante, coerente, um novo texto, uma nova síntese criadora. Essa síntese integra os dados tanto conceituais quanto sensíveis, tanto da realidade quanto da ficção, do presente e do passado, do político, econômico e cultural. Falamos assim, de uma educação para a comunicação. Uma educação que procura ajudar as pessoas individualmente e em grupo a realizar sínteses mais englobantes e coerentes, tomando como partida as expressões de troca que se dão na sociedade e na relação com cada pessoa; ajudar a entender uma parte dessa totalidade a partir da comunicação enquanto organização de trocas tanto ao nível interpessoal como coletivo.
A educação para a comunicação precisa da articulação de vários espaços educativos, mais ou menos formais: educação ao nível familiar, trabalhando a relação pais-filhos-comunicação, seja de forma esporádica ou em momentos privilegiados, em cursos específicos também. A relação comunicação-escola, uma relação difícil e problemática, mas absolutamente necessária para o enriquecimento de ambas, numa nova perspectiva pedagógica, mais rica e dinâmica. Comunicação na comunidade, analisando os meios de comunicação a partir da situação de uma determinada comunidade e interpretando concomitantemente os processos de comunicação dentro da comunidade. Educação para a comunicação é a busca de novos conteúdos, de novas relações, de novas formas de expressar esses conteúdos e essas relações.
A escola precisa exercitar as novas linguagens que sensibilizam e motivam os alunos, e também combinar pesquisas escritas com trabalhos de dramatização, de entrevista gravada, propondo formatos atuais como um programa de rádio uma reportagem para um jornal, um vídeo, onde for possível. A motivação dos alunos aumenta significativamente quando realizam pesquisas, onde se possam expressar em formato e códigos mais próximos da sua sensibilidade. Mesmo uma pesquisa escrita, se o aluno puder utilizar o computador, adquire uma nova dimensão e, fundamentalmente, não muda a proposta inicial.

Integrar as Mídias na Escola

Antes da criança chegar à escola, já passou por processos de educação importantes: pelo familiar e pela mídia eletrônica. No ambiente familiar, mais ou menos rico cultural e emocionalmente, a criança vai desenvolvendo as suas conexões cerebrais, os seus roteiros mentais, emocionais e suas linguagens. Os pais, principalmente a mãe, facilitam ou complicam, com suas atitudes e formas de comunicação mais ou menos maduras, o processo de aprender a aprender dos seus filhos.
A criança também é educada pela mídia, principalmente pela televisão. Aprende a informar-se, a conhecer - os outros, o mundo, a si mesmo - a sentir, a fantasiar, a relaxar, vendo, ouvindo, "tocando" as pessoas na tela, que lhe mostram como viver, ser feliz e infeliz, amar e odiar. A relação com a mídia eletrônica é prazerosa - ninguém obriga - é feita através da sedução, da emoção, da exploração sensorial, da narrativa - aprendemos vendo as estórias dos outros e as estórias que os outros nos contam.
Mesmo durante o período escolar a mídia mostra o mundo de outra forma - mais fácil, agradável, compacta - sem precisar fazer esforço. Ela fala do cotidiano, dos sentimentos, das novidades. A mídia continua educando como contraponto à educação convencional, educa enquanto estamos entretidos.
A educação escolar precisa compreender e incorporar mais as novas linguagens, desvendar os seus códigos, dominar as possibilidades de expressão e as possíveis manipulações. É importante educar para usos democráticos, mais progressistas e participativos das tecnologias, que facilitem a evolução dos indivíduos. O poder público pode propiciar o acesso de todos os alunos às tecnologias de comunicação como uma forma paliativa, mas necessária de oferecer melhores oportunidades aos pobres, e também para contrabalançar o poder dos grupos empresariais e neutralizar tentativas ou projetos autoritários.
Se a educação fundamental é feita pelos pais e pela mídia, urgem ações de apoio aos pais para que incentivem a aprendizagem dos filhos desde o começo das vidas deles, através do estímulo, das interações, do afeto. Quando a criança chega à escola, os processos fundamentais de aprendizagem já estão desenvolvidos de forma significativa. Urge também a educação para as mídias, para compreendê-las, criticá-las e utilizá-las da forma mais abrangente possível.
A educação para os meios começa com a sua incorporação na fase de alfabetização. Alfabetizar-se não consiste só em conscientizar os códigos da língua falada e escrita, mas dos códigos de todas as linguagens do homem atual e da sua interação. A criança, ao chegar à escola, já sabe ler histórias complexas, como uma telenovela, com mais de trinta personagens e cenários diferentes. Essas habilidades são praticamente ignoradas pela escola, que, no máximo, utiliza a imagem e a música como suporte para facilitar a compreensão da linguagem falada e escrita, mas não pelo seu intrínseco valor. As crianças precisam desenvolver mais conscientemente o conhecimento e prática da imagem fixa, em movimento, da imagem sonora ... e fazer isso parte do aprendizado central e não marginal. Aprender a ver mais abertamente, o que já estão acostumadas a ver, mas que não costumam perceber com mais profundidade (como os programas de televisão).
Antes de pensar em produzir programas específicos para as crianças, convém retomar, estabelecer pontos com os produtos culturais que lhes são familiares. Fazer re-leituras dos programas infantis, re-criação desses mesmos programas, elaboração de novos conteúdos a partir dos produtos conhecidos. Partir do que o rádio, jornal, revistas e televisão mostram para construir novos conhecimentos e desenvolver habilidades. Não perder a dimensão lúdica da televisão, dos computadores. A escola parece um desmancha-prazeres. Tudo o que as crianças adoram a escola detesta, questiona ou modifica. Primeiro deve-se valorizar o que é valorizado pelas crianças, depois procurar entendê-lo (os professores e os pais) do ponto de vista delas, crianças, para só mais tarde, propor interações novas com os produtos conhecidos. Depois se podem exibir programas adaptados à sua sensibilidade e idade, programas que sigam o mesmo ritmo da televisão, mas que introduzam alguns conceitos específicos que, aos poucos, irão sendo incorporados.

Texto do seu livro Desafios na Comunicação Pessoal. 3ª Ed. São Paulo: Paulinas, 2007, p. 162-166.

terça-feira, 17 de maio de 2011

POSTURA ÉTICA E AS RELAÇÕES INTERPESSOAIS DO PROFESSOR




1. RELAÇÃO PROFESSOR/ALUNO

v  A arte mais importante do mestre é a de fazer brotar a alegria no estudo e no conhecimento... O professor só pode esperar atingir o seu público na medida em que ele próprio é atingido por esse publico; na medida em que o percebe enquanto desejo e se sente enriquecido por ele.  (Einstein)
v  O ensino é uma prática social complexa onde existem conflitos de valor e que exige posturas éticas e políticas.
v  A sala de aula é um espaço de relações interpessoais, no qual ocorre uma ampla gama de fenômenos psicológicos.
v  O ato pedagógico não pode deixar de considerar as mudanças ocorridas na sociedade no que diz respeito ao plano das relações interpessoais.
v  Ser professor requer saberes e conhecimentos científicos, pedagógicos, educacionais, sensibilidade, indagação teórica e criatividade para encarar as situações ambíguas, incertas, conflituosas.

2. NATUREZA DA ATIVIDADE DOCENTE

  • Proceder à mediação reflexiva e critica entre as transformações sociais concretas e a formação humana dos alunos, questionando o modo de pensar, sentir, agir e de produzir e distribuir conhecimentos.
3. ENSINAR EXIGE

Ø  Habilidade em comunicar-se com os estudantes de modo a aumentar a motivação, o prazer e o aprendizado autônomo;
Ø  Estimular a motivação e a satisfação, promovendo relacionamentos;
Ø  Promover emoções positivas, observando respeito aos estudantes como indivíduos capazes.

4. ENSINAR IMPLICA EM:

  • Relações interpessoais com os estudantes;
  •  Solicitar feedback dos alunos;
  • Liderança em sala de aula; tratando os alunos individualmente.
5. POSTURA PEDAGÓGICA DO PROFESSOR/APRENDIZAGEM

Æ  Dimensão de relacionamento - a forma como o professor percebe o ensino e administra as diferentes situações comportamentais na relação professor-aluno.
ü  Perceber no todo da classe as particularidades dos seus alunos;
ü  Enfrentar as novas situações e diversidade de problemas que surgem na sala de aula num nível profissional, demonstrando estabilidade emocional, sem preconceitos de natureza pessoal;
ü  Ministrar o ensino na perspectiva da classe como um todo, caracterizada pela heterogeneidade;
ü  Assumir postura de liderança e não de autoritarismo, permitindo ao aluno participar do planejamento da disciplina, assegurando que não seja prejudicado o cumprimento da ementa e o nível de aprendizagem definido nos objetivos da disciplina.

Æ  Dimensão cognitiva - aspectos intelectuais e técnico-didáticos, que tornam o conhecimento do conteúdo acessível ao aluno.

6. RELAÇÕES INTERPESSOAIS

¨      Exige desenvolver a inteligência interpessoal;
¨      Aprender a lidar com o outro nas situações conflitantes;
¨      Ética / Respeito / Valorização;
¨      Perceber no todo da classe as particularidades dos seus alunos;
¨      Enfrentar as novas situações e diversidade de problemas que surgem na sala de aula, demonstrando estabilidade emocional, sem preconceitos de natureza pessoal;
¨      Ministrar o ensino na perspectiva da classe como um todo, caracterizada pela heterogeneidade;
¨      Assumir postura de liderança e não de autoritarismo.

7. POSTURA ÉTICA

? Educar é essencialmente formar.
? A necessária promoção da ingenuidade à criticidade não pode ou não deve ser feita a distancia de uma rigorosa formação ética ao lado da estética.  (Paulo Freire)

Consultas Bibliográficas:
  • PIMENTA, Selam Garrido; ANASTASIOU, Lea das G. Camargos. Docência no Ensino Superior. São Paulo: Cortez, 2002.
  • LOWMAN, Joseph. Dominando as Técnicas de Ensino. São Paulo: Atlas, 2004.
  • FREIRE, Paulo. Pedagogia da Autonomia: Saberes Necessários a Pratica Educativa. Rio de Janeiro. Paz e Terra, 1999.

sexta-feira, 22 de abril de 2011

RELAÇÕES INTER-PESSOAIS NO COTIDIANO E APRENDIZAGEM





Se o desenvolvimento da inteligência exige a ação e a interação com o objeto de conhecimento, quanto menos se lida com esse objeto, menor desenvolvimento ou nenhum ocorre.
Quando falamos do tema “Aprendendo a lidar com Gente – Relações Inter pessoais no cotidiano” (Editora Edufba), que é título e tema de seu livro falamos também das interseções de estruturas de pensamento?
Sim. Na época em que Piaget concretizou sua obra não estava em voga a expressão Rede. Não no sentido que se evidencia na atualidade. Mas, ele sem dúvida foi um precursor da idéia que essa expressão atual traz contida. A idéia de conexão. Isto se considerarmos cada indivíduo como portador de conhecimentos únicos e de estruturas de pensamento únicas de acordo com sua constituição biológica, oportunidades sociais e culturais, experiências e interações. Se pensarmos, como ele nos demonstrou, que existe uma matriz cognitiva que possibilita o desenvolvimento da inteligência e que esta matriz é comum à espécie humana, mas que para esse desenvolvimento ocorra é imprescindível a ação, torna-se  inquestionável a exigência das relações interpessoais nessa perspectiva.
Para avançar em meus conhecimentos preciso conectar-me comigo mesmo, com as informações e saberes que disponho e preciso conectar-me com o outro que, invariavelmente, dispõe de conhecimentos informações e saberes diferentes dos meus. Mediante confrontação, comparação e reflexão, desse processo interativo, resultará o avanço do conhecimento pessoal e coletivo. Aí estão as interseções de estruturas de pensamento.
Elas poderão ser mais ou menos abrangentes, confirmadas ou negadas. Mas, de qualquer forma representarão avanços em domínios cognitivos. Assim, tornam-se essenciais às relações interpessoais. Quanto mais elaboradas, conscientes e respeitosas elas sejam, maior será a extensão das conquistas em estruturas de pensamento. Indivíduos que dispõem de conhecimentos específicos e não se permitem submetê-los a trocas, a equivalências e a prova mediante interações pessoais e grupais deixam de receber contribuições que, muitas vezes, não integram seu particular campo perceptual e de conhecimentos.

Qual a importância das relações interpessoais na escola, quando falamos de aprendizagem?
Por meio das relações interpessoais, acredito, pode-se trabalhar a maioria das grandes mazelas que castigam a humanidade. Senão vejamos constrangimento, preconceito, discriminação conflito, corrupção, estresse, guerra, destruição ambiental, ignorância, exploração e mais e mais.
O processo de aprendizagem está atrelado às relações interpessoais. Nesse âmbito encontra-se um infindável número de sujeitos, circunstâncias, espaços e tempos. As relações familiares, sociais, institucionais estão estreitamente relacionadas aos resultados finais de avanços ou estagnações em processos de aprendizagem.
Reduzindo-se à sala de aula temos nas relações e interpessoais entre professores e alunos e a construção de vínculos com a aprendizagem, um dos aspectos fundamentais a serem considerados. Cada um pode reportar-se a experiências em que passaram a interessar-se ou a rejeitar determinadas “disciplinas” a partir de certos tipos de relações interpessoais. Seguidas vezes tenho depoimentos de alunos que detestavam um assunto e passam a “gostar” e interessar-se pelos mesmos a partir da presença de um novo professor. Ou seja, o professor passa a representar um vínculo favorável ou desfavorável com determinado tipo de conhecimento.
Se o desenvolvimento da inteligência exige a ação e a interação com o objeto de conhecimento, quanto menos se lida com esse objeto, menor desenvolvimento ou nenhum ocorre. Estabeleça-se então a relação com as conseqüências das nossas de “ensinar-se” a um aluno por meio de relações interpessoais negativas, a não gostar de aprender. Especialmente levando em conta a necessidade de sobrevivência com que vem se caracterizando aprendizagem. Costumo dizer que a sala de aula é um verdadeiro fenômeno social. Tudo que ocorre no contexto social maior ali estará representado. Lidar com as conexões que emergem e estão subjacentes nesse espaço exigem perspicácia e atitudes de observação e pesquisa continuada por parte do professor. As trocas interpessoais são incessantes e permeiam todo e qualquer procedimento de aprendizagem.

As dinâmicas de grupo ajudam na escola?
Recentemente ministrei uma disciplina em um curso de Pós Graduação, em Salvador, cujo nome seria Dinâmicas de Grupo e Técnicas de Ensino. Solicitei à Coordenadora do curso a mudança desse título para Dinâmica de Grupo e Técnicas de Ensino.           Na verdade seria somente a retirada de um s. Vou explicar o porque do meu pedido. Cada grupo tem uma dinâmica, um movimento especial. A soma das partes não corresponde ao todo. Quando se forma um grupo processa-se uma “química” entre os sujeitos que o integram.
É curiosíssimo e o professor deve estar atento para decifrar o que resulta desse conjunto de sujeitos colocados em um espaço, num determinado tempo, para desenvolverem atividades específicas. Ele poderá descobrir muito sobre cada um dos integrantes do grupo, sobre o grupo e sobre ele mesmo. É interessante lembrar que um mesmo grupo é um com determinado professor e outro com outro professor. Os conhecimentos sobre o como lidar com o grupo e suas relações constituem-se em um pré – requisito para a aplicação de técnicas de ensino.
Quanto às “dinâmicas de grupo”, encontramos inúmeras publicações que tratam do assunto, apresentam sugestões, roteiros e esquemas. São preciosos e interessantes recursos. Como o próprio nome sugere dinamizam o grupo que se submete à aprendizagem. Contudo, se o professor não tiver o respaldo de conhecimentos sobre a dinâmica do grupo, os resultados podem ser nefastos, gerando situações ridículas constrangedoras, inibidoras e de desconfortos para os integrantes do grupo.

Por que o processo de comunicação, muitas vezes, é tão difícil?
Primeiramente porque não existe igual. Os seres humanos são únicos em sua historicidade e em sua constituição bio-psico-social. Por outro lado, somos egocêntricos. Sempre a vida toda. Não somente até os sete anos, como nos foi ensinado. A leitura de mundo de cada ser vivente se faz pelo que ele é como pessoa em um tempo e num espaço. O querer de cada pessoa está condicionado a estes mesmos determinantes. Assim cada um de nós tem necessidades relativas aos nossos próprios percursos de vida e características pessoais e sociais. Imagine-se então quando somos colocados para conviver e trocar pensamentos, idéias, instruções sobre alguma coisa, qualquer que seja o tema. Cada um irá buscar no seu mundinho pessoal os elementos que lhes são próprios e coerentes com o que aprendeu e fazem sentido para si mesmo. Só que cada pessoa se reportará ao seu repertório pessoal que é intransferível.
Na interação teremos o encontro desses repertórios. Então, não bate , não casa, não coincide o que eu penso, o que eu acredito, a minha experiência com a do outro. O meu certo, necessariamente não é o certo do outro. O meu jeito de fazer é diferente do jeito de fazer do outro e por ai vai.
Quando se diz algo, quando se passa uma instrução, um princípio se acredita que o outro está traduzindo em conformidade com aquilo que eu queria dizer. Entretanto, isto necessariamente não acontece. O outro traduz a mensagem que eu lhe passo pelo seu repertório pessoal, sempre e inevitavelmente diferente do meu. Daí a necessidade de conferir e clarificar percepções, relativas aos processos de comunicação. A grande maioria de mal entendidos, conflitos, incompreensões pode ser mapeada nesse território.
Estarmos conscientes de nosso egocentrismo é um bom começo para nos comunicarmos melhor com os outros, porque estaremos atentos e tentando decifrar o egocentrismo do outro e assim se possibilita o surgimento de pontes e elos que permitam o trato com convergências e divergências.

Como contornar momentos difíceis sem se violentar?
O princípio de meu trabalho é o seguinte: “Toda a ação individual e social perpassa, antes de tudo, por pessoas. Ou seja, por cada um de nós”.
Assim, o jeito de contornar e o próprio conceito de “momentos difíceis” estarão relacionados a cada indivíduo em particular. Da mesma forma está condicionada a cada pessoa, como um sistema integrado, a sua perspectiva em relação a “se violentar”.
Por esses motivos cada individuo terá suas próprias formas e medidas em relação a essa questão. O que cada um pode exercitar é o seu potencial de aprendizagem, com o qual todo ser humano foi agraciado. Aprendemos sobre tudo, matemática, física, plantas, informática, e mais e mais. Somos mais ou menos submetidos a aprendizagens nesses campos de conhecimento. Mas, aprendemos muito pouco sobre nós mesmos. O que é para mim, pessoalmente contornar? O que é para mim, um momento difícil? O que me violenta? Como essas questões são respondidas pelo outro? Estou pedindo ao outro coisas que ele não tem condições de me oferecer, porque sua historicidade, seu jeito de ser, levam-no a um referencial pessoal que não se coaduna com o meu? É possível negociar? Torna-se necessário o afastamento ou mesmo a ruptura? É necessário enfrentar conflitos para que questões essenciais sejam esclarecidas?
Essas são algumas questões que precisam ser encaradas, em um contexto, para que posições pessoais sejam coerentes e nos possibilitem crescimento no exercício de viver lidando com confortos e desconfortos que integram a existência.

Como compreender o que se passa na cabeça dos jovens?
Uma série de fatores estão implicados nessa questão.
Quero falar da contemporaneidade. Contemporâneo é aquele que vive ao mesmo tempo. Aí novamente entra a idéia de rede, de conexões e de interseções. Posso dizer que meu avô Leônidas é o meu contemporâneo. Ele já se foi, mas em um dado tempo, vivemos juntos. Rafaela e Letícia também são minhas contemporâneas. Calcule-se à distância entre “as cabeças” do meu avô e de minhas netas. E eu estou neste percurso interagindo com esses mundos absolutamente diversos.
É preciso lembrar que o processo de construção cognitiva e de personalidade ocorre em um tempo e espaço com relações que se determinam e interinfluenciam. Aí está a ciência, tecnologia, literatura, cultura, códigos de crenças e valores em permanente movimento e modificações conseqüentes. Some-se a isto tudo as diferenças individuais peculiares a diferentes sexos, faixas etárias, estilos pessoais, ritmos e tempos.
Em palestras que tratam sobre esses assuntos costumo perguntar aos pais e professores:
            - Quantos aparelhos elétricos tinham em sua casa quando você tinha dez anos de idade?
            - Quantos cursos ou atividade extra-curriculares você desenvolvia nesta época?
            - Quantos canais de televisão você assistia?
            - Qual a cena de sexo que mais lhe chamou atenção em suas leituras  ou em programas televisivos?
Ora, todas essas ofertas representaram oportunidades de aprendizagem. E tanto elas ocorreram que nos lembramos delas. Ao compararmos verificaremos o quanto se antecipou e agilizou a oferta de aprendizagens ao jovem atual.
Aí precisamos exercitar uma das capacidades que nos é inerente pela natureza humana que é a atualização. Precisamos aprender nossos jovens.
            Complemento, nossos jovens precisam nos aprender. Precisamos nos ensinar a eles. Temos um repertório respeitável que por muitos motivos eles não dispõem, e precisam e posso dizer estão ávidos de nossos saberes. Mas, muitas vezes, nos colocamos na defensiva ou reagimos às suas colocações sem tentar compreendê-las no contexto atual. Novamente nos deparamos com as relações interpessoais. Dividimos nossas existências em um mundo conturbado. Somos reciprocamente necessários para tentar compreendê-lo e caminharmos juntos.

Como compreender o que se passa na cabeça dos amigos?
Os amigos representam patrimônio incalculável. Eles sinalizam nossas possibilidades, nos dizem verdades, são companheiros nas adversidades e sucessos. Porém, como nós, são gente. E assim sendo, trazem na matriz própria da espécie humana características possíveis de serem consideradas positivas e negativas. As rupturas de amizades, por vezes, são mais dolorosas do que outros tipos de relações. Às vezes porque idealizamos expectativas de seres perfeitos. Precisamos ativar a certeza de que eles não existem. Uma das variáveis que aparecem em todas as relações e que comprometam amizades é a competição.
Precisamos saber que competimos, também, com nossos amigos, adestrar essa tendência pode representar um exercício de aprendizagem para conservarmos amizades sadias.
É preciso, também, dimensionar a tendência pessoal que temos para maximizar condutas que pessoalmente consideramos como negativas. Seguidas vezes uma história de amizade eivada de positividade e contribuições recíprocas desmorona em conseqüência de um único acontecimento para qual não é permitido qualquer tipo de concessão.

Como compreender o que se passa “na cabeça” dos colegas de trabalho?
O que falei em relação aos amigos e aos jovens, feitas as devidas adaptações, também se aplica aos colegas de trabalho.
A compreensão desse relacionamento exige uma contextualização especial face às idiossincrasias do mundo atual e do trabalho no que se refere às leis trabalhistas , processo de globalização, desemprego, rotatividade de exigências, incerteza funcional, etc. As necessidades básicas de sobrevivência, por vezes, se sobrepõem às necessidades de crescimento pessoal e geram comportamentos primários e extremamente questionáveis no que se refere a princípios morais e de respeito ao outro. Muitas vezes as próprias pessoas que assim se conduzem tem consciência da extensão e negatividade de suas ações, mas buscam justificativas contextuais para suas ações. Se instalam dramas pessoais e as conseqüências se manifestam em ansiedade, angustia estresse e outros males. Tenho tido, entretanto com todo esse quadro de dificuldades, muitos exemplos de relacionamentos profissionais em que questões de disputas e competição conseguiram ser resolvido às claras e de forma madura. Ganham todos quando se consegue chegar a este ponto.

O que leva as pessoas a complicar a vida?
Precisamos compreender que cada pessoa tem um estilo próprio no fazer as coisas, bem como para desempenhar papéis. Considere-se cada uma pessoa como um sistema integrado. Vários fatores influenciam e determinam o surgimento desse estilo. É claro que ele pode mudar mediante aprendizagens. Mas as aprendizagens só ocorrem quando o indivíduo se predispõe a concretizá-las. Isto porque aprendizagem é modificação de comportamento. Ou seja, eu faço algo de uma forma e mediante aprendizagem passo a fazer de outra. Então o que leva a complicações da vida? O desconhecimento de si mesmo. O não reconhecer necessidades pessoais importantes. O não estabelecimento de prioridades. O desconsiderar o outro como um universo único e diferenciado em cultura, necessidades, expectativas, objetivos e vivencias.
O desconhecimento do trato a ser dado ao sim e ao não que permeiam a vida. A intolerância à frustração. O não ter coragem de lidar com adversidades. O transferir para o outro a responsabilidade de seus insucessos. O não se visualizar como sujeito de suas próprias ações.

Como tornar mais agradável à convivência em diferentes espaços e minimizar atritos?
Não podemos ser ingênuos. Em determinados casos as pessoas com quem lidamos não estão disponíveis e seus percursos de pensamento e condutas seguem traços paralelos aos nossos. Jamais se encontram. Não ocorre interseção. Usando uma linguagem da informática os programas pessoais não são compatíveis, não existe possibilidade de decodificação recíproca. Porém, como afirma Julio Diniz, o sempre e o nunca são duas palavras muito perigosas. Podem ocorrer mudanças surpreendentes, quando se identifica o que é significativo para uma pessoa e se tenta decifrar seu código particular de crenças e valores.
De uma maneira geral a convivência se tornará sempre mais agradável quando se embasar no seguinte princípio:
Nem só eu, nem só o outro. Mas sim eu e o outro.

Quais são os maiores equívocos nas relações interpessoais?
•Esquecer que o outro é outro;
•Exigir do outro condutas que ele não tem condições de desempenhar;
•Querer que o outro pense como eu penso, goste do que eu gosto, queira o que eu quero;
•Achar que o poder se concentra de um único lado das partes envolvidas em um relacionamento;
•Acreditar que se pode mudar o outro;
•Negar-se como pessoa única;
•Ver a possibilidade de abdicar de um querer pessoal como sinal de fraqueza.

Como podemos considerar os elementos emocionais e irracionais do outro?
Bujold diz com muita propriedade que para se compreender o outro é necessário, a priori, que compreendamos a nós mesmos. Só conseguimos identificar elementos emocionais e irracionais no outro porque eles integram a nossa particular matriz humana. Não somos somente anjos. Também, não somente demônios. O que podemos e fazemos mediante processo de educação é disciplinar instintos e características primárias e destrutivas. Entretanto seguidas vezes elas nos surpreendem emergindo e manifestando reações pessoais que em nada nos orgulham.
Digo que o que mais me desagrada no outro é o que menos gosto em mim mesmo.
Posso não exercer aqueles comportamentos porque já os controlei mediante procedimentos reflexivos e de educação, e, não me permito praticá-los. Mas, feitos os ajustes de relatividade, só consigo decodificá-los porque existem símbolos correspondentes em minha matriz pessoal.

Se o indivíduo não está em processo terapêutico, como percebemos o que está acontecendo ao redor de nós e dentro de nós de forma clara?
Depositar no outro qualquer que seja este outro e mesmo que seja o terapeuta, a possibilidade de percebermos o que está acontecendo ao redor de nós e dentro de nós de forma clara, caracteriza, antes de tudo, uma relação de dependência ou seja, condiciona-se a possibilidade de uma leitura de mundo clara colocada na questão, e, penso coerente, ao processo terapêutico que se submete o indivíduo.
Acredito que nem mesmo os terapeutas conscientes e responsáveis assumiriam uma exclusividade relativa a esta possibilidade de “percebermos o que está acontecendo ao redor de nós e dentro de nós de forma clara”.
Evidentemente que o trabalho profissional terapêutico pode facilitar o processo de ampliação, reflexão e modificação relativa a nossas percepções. Mas, esse processo, também não se esgota na ação desse profissional.
A cada momento nos deparamos com uma multiplicidade de percepções diferenciadas e condizentes com indivíduos que são verdadeiros universos únicos em termos bio-psico-sociais. Lidar com esta diversidade é essencial ao desenvolvimento das relações interpessoais. David Hargreaves nos diz com muita propriedade que “toda experiência se remete a esquemas interpretativos”. Esses esquemas são relativos à historicidade pessoal de cada ser humano e aí estão incluídas infinitas variáveis que vão de sua constituição física, ambiente familiar, cultural, experiências, leituras, mestres etc.
A interação com cada um desses sujeitos nos colocará diante de percepções diferentes elas podem ser convergentes ou divergentes do nosso modo de “ver” as coisas.
Deve-se ressaltar processo de autoconhecimento que pode e deve ser desenvolvido e estimulado pela família, pela escola e por diferentes instituições sociais.
Encarar o autoconhecimento, o conhecimento do outro e a diversidade como matérias ou disciplinas ou áreas de conhecimento como outras quaisquer é uma necessidade inerente a moderna concepção de currículo baseada no princípio da religação dos saberes e da complexidade.
Aprender sobre si mesmo e sobre o outro em um mundo em constante mutação podem transformar-se em procedimentos pedagógicos inseridos como temas principais ou transversais nas mais variadas áreas de conhecimento.
Imagine-se a população mundial condicionada a exigência de trabalho terapêutico para uma interpretação existencial clara. Missão impossível. E o que faríamos com Freud, Emerson, Sócrates, Confício, Platão, Marx, Einstein que, construíram fantásticos paradigmas existenciais mediante observações, aprendizagens estudos e reflexões? E outros tantos exemplares leitores anônimos da vida que, revelam sabedoria e grandeza no exercício de viver?
Lidar com nossas realidades, trocar, conferir são tarefas para todo dia em todos os espaços em que se encontram pessoas. As atitudes de curiosidade, observação, interação e reflexão nos introduzirão no fabuloso mundo do outro e nos tornarão mais compreensivos e solidários, conforme apregoa Vigotsky: na ausência do outro o homem não se constrói homem.


Lucila Rupp de Magalhães - Mestre em Educação, Psicopedagoga, Mediadora, Feurstein's Instrumental Enrichment, Especialista em Relações Interpessoais, Crescimento Pessoal e Metodologia do Ensino Superior. Ex-Diretora da Faculdade de Educação da UFBa, Conselheira de Educação da Bahia, Coordenadora de projetos de pesquisa no MEC, INEP e UFBa, Consultora de diversas organizações públicas e privadas.