quinta-feira, 31 de março de 2011

AUTISMO INFANTIL



Em 1943, o autismo foi conceituado pela primeira vez por Leo Kanner, como uma doença da linha das psicoses, caracterizada por isolamento extremo, alterações de linguagem representadas pela ausência de finalidade comunicativa, rituais do tipo obsessivo com tendência a mesmice e movimentos estereotipados. Nessa abordagem, a doença tinha suas origens em problemas das primeiras relações afetivas entre mãe e filho, que comprometiam o contato social, idéia extremamente difundida até meados dos anos 70. Hoje, essa doença é definida como um conjunto de sintomas de base orgânica, com implicações neurológicas e genéticas. Atualmente, o autismo é uma área de intenso interesse, em que diferentes estudos se estabelecem e promovem desde alterações conceituais até modificações terapêuticas de fundamental importância.

O que é autismo?
O autismo é descrito como uma síndrome comportamental com causas múltiplas, decorrente de um distúrbio de desenvolvimento. É caracterizado por déficit na interação social, ou seja, inabilidade para se relacionar com o outro, usualmente combinado com déficit de linguagem e alterações de comportamento. Os sinais e sintomas aparecem antes dos 3 anos de idade e, em cada 10.000 crianças, de quatro a cinco apresentam a doença, com predomínio em indivíduos do sexo masculino (3:1 ou 4:1).

Quais são as causas do autismo?
As causas do autismo são desconhecidas, mas diversas doenças neurológicas e/ou genéticas foram descritas com sintomas do autismo. Problemas cromossômicos, gênicos, metabólicos e mesmo doenças transmitidas/adquiridas durante a gestação, durante ou após o parto, podem estar associados diretamente ao autismo. Entre 75 a 80% das crianças autistas apresentam algum grau de retardo mental, que pode estar relacionado aos mais diversos fatores biológicos. Portanto, a evidência de que o autismo tem suas causas em fatores biológicos é indiscutível, fazendo-nos reconsiderar a idéia inicial de ligarmos o quadro de autismo a alterações nas primeiras relações mãe-filho.

Quais são as doenças relacionadas ao autismo?
Podemos listar uma série grande de doenças das mais diferentes ordens envolvidas nos quadros autísticos:
  • Infecções pré-natais - rubéola congênita, sífilis congênita, toxoplasmose, citomegaloviroses;
  • Hipóxia neo-natal (deficiência de oxigênio no cérebro durante o parto);
  • Infecções pós-natais - herpes simplex;
  • Déficits sensoriais - dificuldade visual (degeneração de retina) ou diminuição da audição (hipoacusia) intensa;
  • Espasmos infantis - Síndrome de West;
  • Doenças degenerativas - Doença de Tay-Sachs;
  • Doenças gênicas - fenilcetonúria, esclerose tuberosa, neurofibromatose, Síndromes de Cornélia De Lange, Willians, Moebius, Mucopolissacaridoses, Zunich;
  • Alterações cromossômicas - Síndrome de Down ou Síndrome do X frágil (a mais importante das doenças genéticas associadas ao autismo), bem como alterações estruturais expressas por deleções, translocações, cromossomas em anel e outras;
  • Intoxicações diversas.

Quais são os sinais e sintomas do autismo?

A criança autista prefere o isolamento. O autismo é caracterizado por diversos distúrbios:
  • de percepção, como por exemplo dificuldades para entender o que ouve;
  • de desenvolvimento, principalmente nas esferas motoras, da linguagem e social;
  • de relacionamento social, expresso principalmente através do olhar, da ausência do sorriso social, do movimento antecipatório e do contato físico;
  • de fala e de linguagem que variam do mutismo total: à inversão pronominal (utilização do você para referir-se a si próprio), repetição involuntária de palavras ou frases que ouviu (ecocalia); e
  • movimento caracterizado por maneirismos e movimentos estereotipados.

Existe tratamento para o autismo?
Hoje, o tratamento do autismo não se prende a uma única terapêutica. O uso de medicamentos, que antes desempenhava um papel de fundamental importância no tratamento (devido à crença da relação do autismo com os quadros psicóticos do adulto), passa a ter a função de apenas aliviar os sintomas do autista para que outras abordagens, como a reabilitação e a educação especial, possam ser adotadas e tenham resultados eficazes.

Quais são os medicamentos utilizados no tratamento do autismo?
As principais drogas que podem ser utilizadas no tratamento são:
  • Os neurolépticos, utilizados para reduzir os sintomas do austismo. Têm uma resposta geral boa e conseqüente melhoria do aprendizado, embora possa apresentar efeitos colaterais como sedação excessiva, reações distônicas (rigidez mulcular), discinesia (alteração do movimento muscular) e efeitos parkinsonianos (tremor);
  • As anfetaminas, utilizadas na tentativa de diminuir a hiperatividade e melhorar a atenção, mas têm como efeitos colaterais o aparecimento de excitação motora, a irritabilidade e a diminuição do apetite;
  • Os Anti-opióides, utilizados no tratamento de dependência a drogas, têm sua ação principalmente em quadros de auto-agressividade. Provoca tranquilização, diminuição da hiperatividade, da impulsividade, da repetição persistente de atos, palavras ou frases sem sentido (estereotipias) e da agressividade, causando como efeito colateral a hipoatividade.
  • A utilização de complexos vitamínicos como a Vitamina B6 associada ao Aspartato de Magnésio, bem como o uso de Ácido Fólico, embora descritos por diversos autores, apresenta aspectos e resultados conflitantes.

Em que consiste a reabilitação da criança autista?
As propostas de reabilitação substituem os modelos psicoterápicos de base analítica das décadas de 50 e 60, quando a doença era considerada uma conseqüência de distúrbio afetivo. Esses modelos de reabilitação podem então ser caracterizados como: ·
Ø  Modificação de comportamento;
Ø  Terapia de "Holding";
Ø  Aproximação direta do paciente;
Ø  Comunicação facilitada; ·
Ø  Técnicas de integração sensorial; e
Ø  Treino auditivo.

Como é a educação especial para o autista?
Dentre os modelos educacionais para o autista, o mais importante, neste momento, é o método TEACCH, desenvolvido pela Universidade da Carolina do Norte e que tem como postulados básicos de sua filosofia:
a) propiciar o desenvolvimento adequado e compatível com as potencialidades e a faixa etária do paciente;
b) funcionalidade (aquisição de habilidades que tenham função prática);
c) independência (desenvolvimento de capacidades que permitam maior autonomia possível);
d) integração de prioridades entre família e programa, ou seja, objetivos a serem alcançados devem ser únicos e a estratégias adotadas devem ser uniformes.

Dentro desse modelo, é estabelecido um plano terapêutico individual, onde é definida uma programação diária para a criança autista. O aprendizado parte de objetos concretos e passa gradativamente para modelos representacionais e simbólicos, de acordo com as possibilidades do paciente.


Professor Docente-Livre do Departamento de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da USP
Diretor do Serviço de Psiquiatria da Infância e Adolescência do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP.

TRANSTORNO DO DÉFICIT DA ATENÇÃO E HIPERATIVIDADE (TDAH)





O Que é?
Ø  Transtorno neurobiológico
Ø  Distúrbio de realização (não de aprendizagem)
Ø  Pode conduzir a dificuldades emocionais e sociais
Ø  Interfere nas habilidades:
-          manter atenção
-          controle
-          inibição
Ø  20 a 30 % apresentam também problemas de aprendizagem
Ø  Características básicas: impulsividade, hiperatividade e falta de atenção

Características

Ø  Aparecem bem cedo – 1ª infância
Ø  Comportamentos crônicos – duração mínima de 6 meses
Ø  Instala-se antes dos 7 anos
Ø  Podem saber o que deve ser feito:
-          Não conseguem parar e pensar antes de agir
-          Independentemente do ambiente ou tarefa

Causas (Prováveis)
Ø  Não se sabe ao certo ainda
Ø  Estudos recentes encaminham pistas para:
-          Hereditariedade (pais com TDAH – 5x maior)
-          Problemas durante a gravidez ou parto com sofrimento fetal
-          Exposição a certas substâncias químicas (chumbo, fumo ...)
-          Problemas familiares (discórdia conjugal ...)

Prevalência

Ø  3 a 6% das crianças entre 7 a 14 anos
Ø  Poucos dados entre adolescentes acima de 15 anos e menores de 7 anos
Ø  Freqüência um pouco maior em meninas (2/1)
Ø  Co-morbidade:
-          É mais comum ocorrer em conjunto (dois ou mais problemas)
-          50% apresentam também problemas de comportamento (agressividade, mentiras, roubo, oposição, desafio a regras ...)

C Estudos recentes comprovam que 70% das crianças com TDAH mantêm o diagnóstico até os 14 anos e alguns casos por toda a vida.

Sintomas x Desenvolvimento

Ø  Pré-escolares: hiperatividade, dificuldade em aceitar limites e tolerar frustrações.
Ø  Idade escolar: sintomas combinados e bastante variável nas duas áreas.
Ø  Adolescência: mais desatenção e impulsividade

Tipos de TDAH

Ø  Desatento
Ø  Hiperativo/Impulsivo
Ø  Combinado
Ø  Não específico

Sintomas

Ø  Desatento:
           -    Não presta atenção a detalhes ou comete enganos por descuido
-          Dificuldade de atenção em tarefas e/ou jogos
-          Dificuldade de seguir instruções e/ou terminar tarefas
-          Desorganização com tarefas e materiais
-          Evita atividades que exijam esforço mental continuado
-          Perde objetos necessários às atividades
-          Distrai-se com facilidade
-          Esquece compromissos / tarefas diárias
-          Parece não ouvir
            C Como diagnosticar TDAH – Desatento:
-          Seis ou mais sintomas de desatenção
-          Poucos têm sintomas de hiperatividade/impulsividade
-          Mais comum em meninas
-          Parece mais associado à dificuldade de aprendizagem

Ø  Hiperativo – Impulsivo:
-          Inquietação (remexe os pés e mãos quando sentado)
-          Não pára sentado muito tempo
-          Pula, corre muito sem destino (“bicho-carpinteiro”); em adulto (sentimento de inquietação)
-          É muito barulhento / È muito agitado
-          Fala excessivamente
-          Responde antes de se terminar de perguntar
-          Dificuldade de esperar sua vez
-          Intromete-se em conversas e jogos alheios
         C Como diagnosticar TDAH – Hiperativo/Impulsivo:
-          Seis ou mais sintomas de hiperatividade/impulsividade
-          Pouco ou nenhum sintoma de desatenção
-          Parece mais comum em crianças menores
-          Associado a maiores dificuldades de relacionamento com colegas
-          Tem mais problemas de comportamento

Ø  Combinado (o verdadeiro TDAH):
-          Apresenta sintomas dos dois conjuntos de critérios
-          Parece estar associado a maiores prejuízos globais na vida da criança
         C Como diagnosticar TDAH – Combinado:
-          Seis ou mais sintomas de hiperatividade/impulsividade e de desatenção

Ø  Não Específico:
-          Apresenta características em número insuficiente para um diagnóstico completo
-          Ainda assim, pode desequilibrar a rotina diária

Diagnóstico Geral

1.    Considerar múltiplas facetas: intelectual, social e emocional
2.    Depressão g falta de atenção
3.    Delinqüência g impulsividade
4.    Co-morbidade – considerar
-          Mais importante: histórico clínico e do desenvolvimento, exame médico = diagnóstico diferencial
-          Conjugar dados com diversos adultos que convivem com a criança (professores, pais, parentes e amigos)
5.    Mínimo de seis sintomas
6.    Presença freqüente (não ocasional)
7.    Apresentar em 2 ambientes diferentes (casa e escola)
8.    Início dos sintomas - antes dos sete anos (visão clássica)
9.    Modernamente (pode aparecer após e até os 12 anos +/-)
10. Se só aparecer na adolescência = raramente é TDAH
11. Ferramentas auxiliares (médico e/ou psicólogo)
-          Escala de Conners (p/ pais e professores)
-          Escala de Problemas de Atenção do Inventário de Comportamentos de Crianças e Adolescentes (p/ pais e professores)
-          Escala de Inteligência de Wechsler p/ Crianças (teste psicológico)
-          Testes Neurológicos (teste médico)
12. Diferenciação difícil: hiperatividade x criança ativa

Tratamento

q  Intervenção precoce = grande passo
q  Exige intervenções múltiplas:
1.    Esclarecimento familiar sobre TDAH (c/ profissional de saúde mental)
2.    Psicoterapia (às vezes)
3.    Apoio com psicopedagogo e/ou reforço escolar de conteúdos
4.    Medicação
5.    Orientação de manejo p/ a família
6.    Orientação de manejo p/ os professores
q  Correção de conceitos e rótulos
q  Esclarecimento de aspectos essenciais sobre a síndrome

Þ    Apoio Psicoterápico:
-          Necessário na maior parte das vezes; iniciar com crianças menores
-          Estudos indicam como base: estratégias cognitivo-comportamentais
-          Atuação sobre os sintomas de ansiedade, depressão, baixa auto-estima ... (muitas vezes acompanham)

Þ    Intervenção Psicopedagógica
-          25 a 30% apresentam também problemas de aprendizagem secundários ou associados ao TDAH
-          Diagnóstico tardio (lacunas maiores a serem reconstruídas)
-          Apenas reforço de aprendizagem não resolve seqüelas que ficaram
-          Atendimento pedagógico depois (prevenção de novas lacunas)

Þ    Medicação
-          Responsabilidade do médico que atende a criança
-          Estudos mostram melhora clara em cerca de 70% dos casos
-          Teste terapêutico é necessário p/ se estudar a resposta da criança e avaliar cuidadosamente
-          Nem todas precisam de medicação (c/ sintomas leves)
-          Maioria necessita evitar/diminuir prejuízos significativos em suas vidas
-          Mais usado e estudado: estimulantes e antidepressivos
-          Agem aumentando a disponibilidade dos neurotransmissores
-          Avaliação individualizada pelo médico – além de levar em conta os outros sintomas e diagnóstico de co-morbidade
-          Riscos em geral muitos pequenos se usados corretamente
-          Riscos da medicação = comparar c/ às conseqüências da não utilização

Orientação aos Pais

Þ    Estabeleça as prioridades
1.    Relacione as dificuldades e hierarquize
2.    Ataque a maior primeiro
3.    Só depois de vencida, passe a outra
Þ    Pense antes de agir
1.    Não tome atitudes de forma precipitada
2.    Relacione uma de cada vez
3.    Propor tarefas pequenas
Þ    Use o reforço positivo (recompensa) antes da punição (ressaltar progressos / evitar críticas constantes)
Þ    Constância – não abandonar logo = resultados podem custar
Þ    Mesmas atitudes em todos os ambientes
Þ    Agir da mesma forma: pai e mãe
Þ    Comunique-se com clareza e de forma eficiente
Þ    Instruções claras / pedidos feitos um a um
Þ    Limites claramente definidos
Þ    Propicie atividade física regular / prefira as que tenham regras e limites

Orientação aos Professores

Þ    Converse com a criança as formas em que aprende melhor
Þ    Alterne as estratégias e recursos até ter certeza do estilo de aprendizagem do aluno:
-          Comece com atividades simples
-          Encoraje-o com freqüência
-          Coloque-o perto de você na sala de aula
Þ    A cada semana converse privadamente com a criança / informando-a como está se saindo nas aulas
Þ    Agenda diária para comunicar-se com os pais e outros profissionais que lidam com a criança
Þ    Deixe as regras de funcionamento da classe em local bem acessível
Þ    Regras curtas e claras
Þ    Use o mais possível jogos como tarefas = motivação maior, concentração idem
Þ     Reduza os testes cronometrados = reforçam a impulsividade e ansiedade
Þ    Avalie qualitativamente = essencial é que aprendam

Prognóstico
  Mais sujeito a fracasso escolar
  Dificuldades emocionais na família e na escola
  Menos desempenho, quando adultos, em termos profissionais
  Identificação precoce + tratamento = obstáculos podem ser vencidos


                Clarissa Santos Silva
CRP – 02/3763