O CONTEXTO
Como atender a diversidade de alunos que temos em
classe?
UM CASO
Flávio é professor de Matemática e dá
aulas para as primeiras séries do Ensino Médio. Apesar de ser uma escola
particular ele está cada vez mais perplexo com a composição heterogênea dos
alunos em sala de aula. Não se trata somente de haver distintos níveis de
pontos de partida muito diferentes entre si, mas, mesmo entre esses diferentes
grupos, encontra alunos que possuem uma enorme capacidade para aprender e
outros que sofrem muito para aprender o conceito mais elementar de cada
temática.
De outro lado, existem ao menos dois
grupos no que se refere à motivação para aprender, que não tem nada a ver a
capacidade: alguns alunos que apresentam uma enorme facilidade e não querem
aprender nada, enquanto outros que apresentam mais dificuldades se mostram
bastante interessados.
Além de tudo isso Flávio de deu conta
de que existem não dois, mas muitos estilos de aprendizagem diferentes: alguns
alunos precisam de um descanso entre um exercício e outro, mas outros não; uns
utilizam um estilo analítico enquanto outros, um estilo sintético na
aprendizagem; uns usam mais a modalidade auditiva, enquanto outros a visual... E
com tudo o anteriormente já dito, ainda há a questão dos interesses dos alunos,
pois alguns já sabem muito claramente que desejam seguir no futuro carreira na
área de exatas e portanto têm muito interesse em matemática e outros, fazem
questão de dizer: “nada que tenha ciências exatas! Deus me livre!”.
Para não dizer que não há mais nada,
ainda existem os indisciplinados, os que conversam durante as explicações, os
que não fazem as tarefas nem em aula, nem em casa e, segundo Flávio, há um
desgaste muito grande em ficar chamando a atenção destes alunos o tempo todo.
Flávio está desesperado. É impossível atender
a todos de uma forma individualizada com tantas classes, tantas provas, tantas
reuniões. Como um
professor interessado que é ele pergunta: que posso fazer?
*** Nota: nem era preciso contar que Flávio é um professor interessado. Afinal, ao invés de reclamar da bagunça e da falta de pré-requisitos dos alunos ele apreendeu a existência de diferentes motivações, interesses, estilos de aprendizagem, entre tantas outras percepções que não foram relatadas acima.
UE SE PODE FAZER?
QUE SE
PODE FAZER?
Flávio tem razão: a situação é
desesperadora. Com tantas classes, tantos diários de classe, tarjetas, correção
de provas e reuniões, não há tempo nem condições para atender cada aluno
individualmente. A primeira solução seria a redução do número de classes em que
ele dá aulas (lógico com o mesmo salário), da papelada que se tem que
apresentar e do número de alunos em sala de aula. Infelizmente, resolver a
situação desta forma não está ao alcance de Flávio. Cruzar os braços? Não está
de acordo com os princípios e a compreensão que Flávio tem do que é ser
professor.
Mas, dentro da sala de aula, Flávio pode trabalhar
de outro modo. Pode trabalhar com a proposta de ensinar a turma toda, independentemente
das diferenças de cada um dos alunos. Bem, quem leu o texto até aqui
deve estar pensando: Mas não é nada disso. Que tal ler o texto
abaixo?
UMA
ESCOLA DE QUALIDADE PARA TODOS OS ALUNOS
A sala de aula é o grande termômetro
pelo qual se mede o grau de febre das mudanças educacionais e é nesse micro
espaço que as reformas verdadeiramente se efetivam ou fracassam. Embora a
palavra de ordem seja reformar o nosso ensino, em todos os seus níveis, o que
verificamos quase sempre é que ainda predominam formas de organização do
trabalho escolar que não se alinham na direção de uma escola de qualidade para
todos os alunos. Se quisermos, de fato, reformar o ensino, a questão central a
nosso ver é: como criar contextos educacionais capazes de ensinar todos os
alunos? Outras interrogações derivam desta questão principal, tais como: que
práticas de ensino ajudam os professores a ensinar todos os alunos de uma mesma
turma, atingindo a todos, apesar de suas diferenças? De que qualidade e de
que tipo de escolas está se falando, quando nos referimos a essas reformas?
Neste texto vamos discutir essas questões, em torno das quais gravitam inúmeras
propostas de renovação do ensino.
RECRIAR O
MODELO EDUCATIVO
Superar o sistema tradicional de
ensinar e de aprender é um propósito que temos de efetivar urgentemente, nas
salas de aula. Recriar o modelo educativo refere-se primeiramente ao que
ensinamos aos alunos e a como os ensinamos. Recriar esse modelo tem a ver com o
que entendemos como qualidade de ensino. Há tempos que qualidade de ensino significa alunos com cabeças cheias de
datas, fórmulas, conceitos, todos justapostos, lineares, fragmentados, enfim, o
reinado das disciplinas estáticas e com muito, muito conteúdo.
Escolas
consideradas de qualidade ainda são as que centram a aprendizagem no conteúdo e
que avaliam os alunos, quantificando respostas padrão Seus métodos e práticas
preconizam a exposição oral, a repetição, a memorização, os treinamentos, o
livresco, a negação do valor do erro. São aquelas escolas que estão sempre
preparando o aluno para o futuro: seja este a próxima série a ser cursada, o
nível de escolaridade posterior, o exame vestibular!
Pensamos que uma escola se distingue
por um ensino de qualidade, capaz de formar dentro dos padrões requeridos por
uma sociedade mais evoluída e humanitária, quando promove a interatividade
entre os alunos, entre as disciplinas curriculares, entre a escola e seu
entorno, entre as famílias e o projeto escolar. Em suas práticas e métodos
predominam as co-autorias de saber, a experimentação, a cooperação,
protagonizadas por alunos e professores, pais e comunidade. Nessas escolas o
que conta é o que os alunos são capazes de aprender hoje e o que podemos lhes
oferecer para que se desenvolvam em um ambiente rico e verdadeiramente
estimulador de suas potencialidades. Em uma palavra, uma escola de qualidade
é um espaço educativo de construção de personalidades humanas, autônomas,
críticas, uma instituição em que todas as crianças aprendem a ser pessoas.
Nesses ambientes educativos ensinam-se
os alunos a valorizar a diferença, pela convivência com seus pares, pelo
exemplo dos professores, pelo ensino ministrado nas salas de aula, pelo clima
sócio-afetivo das relações estabelecidas em toda a comunidade escolar - sem
tensões competitivas, solidário, participativo, colaborativo. Escolas assim
definidas são contextos educacionais capazes de ensinar todos, numa mesma
turma.
ENSINAR A
TURMA TODA SEM EXCLUSÕES
Para ensinar a turma toda, parte-se da
idéia de que as crianças sempre sabem alguma coisa, de que todo educando pode
aprender, mas a seu modo e a seu ritmo e de que o professor não deve desistir,
mas nutrir uma elevada expectativa em relação à capacidade de seus alunos
conseguirem vencer os obstáculos escolares, apoiando-os na remoção das
barreiras os impedem de aprender. Entende-se que o sucesso da aprendizagem
tem muito a ver com a exploração dos talentos de cada um e que a
aprendizagem centrada nas possibilidades e não nas dificuldades dos alunos é
uma abordagem efetiva. Em outras palavras, a proposta de se
ensinar a turma toda, independentemente das diferenças de cada um dos alunos,
implica a passagem de um ensino transmissivo para uma pedagogia ativa,
dialógica, interativa, conexional, que se contrapõe a toda e qualquer visão
individualizada, hierárquica do saber.
Para se ensinar a turma toda temos de propor
atividades abertas, diversificadas, isto é, atividades que possam ser abordadas
por diferentes níveis de compreensão e de desempenho dos alunos e em que não se
destaquem os que sabem mais ou os que sabem menos, pois tudo o que essas
atividades propõem pode ser disposto, segundo as possibilidades e interesses
dos alunos que optaram por desenvolvê-las. Debates, pesquisas, registros
escritos, falados, observação; vivências são processos pedagógicos indicados
para realizar essas atividades, além, evidentemente, dos conteúdos das
disciplinas, que vão sendo chamados espontaneamente a esclarecer os assuntos em
estudo.
A avaliação do desenvolvimento dos alunos também muda, por coerência com
a prática referida anteriormente. Trata-se de uma análise do percurso de cada
estudante, do ponto de vista da evolução de suas competências ao resolver
problemas de toda ordem e de seus progressos na organização do trabalho
escolar; no tratamento das informações e na participação na vida social da
escola.
Criar contextos educacionais capazes de ensinar a todos os alunos
demanda uma reorganização do trabalho escolar. Tais contextos diferem
radicalmente do que é proposto pedagogicamente para atender às especificidades
dos educandos que não conseguem acompanhar seus colegas de turma, por problemas
de toda ordem - da deficiência mental a outras dificuldades de ordem
relacional, motivacional, cultural. Sugerem-se nestes casos as adaptações de
currículos, a facilitação das atividades escolares, além dos programas para
reforçar as aprendizagens ou mesmo acelerá-las, em casos de maior defasagem
idade/séries escolares.
A possibilidade de se ensinar a turma toda, sem discriminações e sem
adaptações pré definidas de métodos e práticas especializadas de ensino advém,
portanto, de uma reestruturação do projeto pedagógico-escolar como um todo e
das reformulações que esse novo projeto exige da prática de ensino, para que
esta se ajuste a novos parâmetros de ação educativa.
Enquanto os professores,
persistirem em:
- propor trabalhos coletivos, que nada mais
são do que atividades individuais feitas ao mesmo tempo pela turma - ensinar com ênfase nos
conteúdos programáticos da série;
- adotar o livro didático, como ferramenta
exclusiva de orientação dos programas de ensino;
- servir-se da folha mimeografada ou xerocada
para que todos os alunos a preencham ao mesmo tempo, respondendo às mesmas
perguntas, com as mesmas respostas;
- propor projetos de trabalho totalmente
desvinculados das experiências e do interesse dos alunos, que só servem para
demonstrar uma falsa adesão do professor às inovações;
- organizar de modo fragmentado o emprego do
tempo do dia letivo para apresentar o conteúdo estanque desta ou daquela
disciplina e outros expedientes de rotina das salas de aula;
- considerar a prova
final, como decisiva na avaliação do rendimento escolar do aluno.
Não teremos condições de ensinar a turma toda,
reconhecendo as diferenças na escola. Estas práticas pedagógicas
configuram um ensino para alguns alunos. E para
alguns, em alguns momentos, algumas disciplinas, atividades e situações de sala
de aula. A exclusão então se manifesta amplamente, atingindo a todos os alunos,
em um ou em outro momento do dia escolar, porque sempre existem os que não
aceitam deliberadamente uma proposta de trabalho escolar descontextualizada,
sem sentido e atrativos intelectuais, porque não desafia, não atende a
motivações pessoais. Essas atividades servem para gerar indisciplina,
competição, discriminação, preconceitos e para categorizar os bons e os maus
alunos, por critérios infundados e irresponsáveis.
O professor que ensina a turma toda compartilha com seus alunos a
autoria dos conhecimentos produzidos em uma aula; trata-se de um profissional
que reúne humildade com empenho e competência para ensinar, pois o falar e o
ditar não são mais os seus recursos didático-pedagógicos básicos. O ensino
expositivo não cabe nas salas de aula em que todos interagem e participam
ativamente da construção de idéias, conceitos, sentimentos, valores.
Um ponto crucial do ensinar a turma toda é
reconhecer o outro em sua inteligência e valorizá-lo, de acordo com seus
saberes e com a sua identidade sócio-cultural. Sem estabelecer uma
referência, mas investindo nas diferenças e na riqueza de um ambiente que
confronta significados, desejos, experiências, o professor deve garantir a
liberdade e a diversidade das opiniões dos alunos e nesse sentido ele é
obrigado a abandonar crenças e comportamentos que negam ao aluno a
possibilidade de aprender a partir do que sabe e chegar até onde é capaz de
progredir.
O nosso desafio como
educadores é reunir alunos de diferentes níveis, diante de uma situação de
ensino, em grupos desiguais, pois assim é que se passa na vida e é assim que a
escola deve ensinar a ter sucesso na vida. Temos, pois de
desconfiar das pedagogias que programam dispositivos e que se nutrem de bons
propósitos de ensinar, de preparar para a vida, mas que favorecem
ativamente os desfavorecidos. Ser competente na escola e na vida depende de
tempo, e esse tempo é contado desde cedo, quando, nas salas de aula,
construímos conhecimento e aprendemos a mobilizá-lo em situações as mais
diferentes, que exigem transposições entre o que é aprendido e o que precisa
ser resolvido com sucesso e na desigualdade dos níveis, nas diferenças de
opiniões, de enfoques, de humores, de sentimentos.
Essa
transposição e a construção de competências, entendida como nos define
Perrenoud (1999): (p.7) tem seu cenário ideal na escola que repete a vida, tal como ela
é.
Referências bibliográficas
FREIRE, Paulo. Pedagogia do oprimido. São Paulo: Paz e Terra, 1978.
PERRENOUD, Philippe. Construir as competências desde a escola; trad.
Bruno Charles Magne. Porto Alegre: Artes Médicas Sul, 1999.
Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) - Faculdade de Educação -
Departamento de Metodologia de Ensino Laboratório de Estudos e Pesquisas em
Ensino e Diversidade - LEPED/Unicamp.
Vera Lúcia Camara
Zacharias é mestre em Educação, Pedagoga, consultora educacional, assessora
diversas instituições, profere palestras e cursos, criou e é diretora do CRE.