terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

DIVERSIDADE NA SALA DE AULA




O CONTEXTO

Como atender a diversidade de alunos que temos em classe?

UM CASO

Flávio é professor de Matemática e dá aulas para as primeiras séries do Ensino Médio. Apesar de ser uma escola particular ele está cada vez mais perplexo com a composição heterogênea dos alunos em sala de aula. Não se trata somente de haver distintos níveis de pontos de partida muito diferentes entre si, mas, mesmo entre esses diferentes grupos, encontra alunos que possuem uma enorme capacidade para aprender e outros que sofrem muito para aprender o conceito mais elementar de cada temática.
De outro lado, existem ao menos dois grupos no que se refere à motivação para aprender, que não tem nada a ver a capacidade: alguns alunos que apresentam uma enorme facilidade e não querem aprender nada, enquanto outros que apresentam mais dificuldades se mostram bastante interessados.
Além de tudo isso Flávio de deu conta de que existem não dois, mas muitos estilos de aprendizagem diferentes: alguns alunos precisam de um descanso entre um exercício e outro, mas outros não; uns utilizam um estilo analítico enquanto outros, um estilo sintético na aprendizagem; uns usam mais a modalidade auditiva, enquanto outros a visual... E com tudo o anteriormente já dito, ainda há a questão dos interesses dos alunos, pois alguns já sabem muito claramente que desejam seguir no futuro carreira na área de exatas e portanto têm muito interesse em matemática e outros, fazem questão de dizer: “nada que tenha ciências exatas! Deus me livre!”.
Para não dizer que não há mais nada, ainda existem os indisciplinados, os que conversam durante as explicações, os que não fazem as tarefas nem em aula, nem em casa e, segundo Flávio, há um desgaste muito grande em ficar chamando a atenção destes alunos o tempo todo.
Flávio está desesperado. É impossível atender a todos de uma forma individualizada com tantas classes, tantas provas, tantas reuniões. Como um professor interessado que é ele pergunta: que posso fazer?

*** Nota: nem era preciso contar que Flávio é um professor interessado. Afinal, ao invés de reclamar da bagunça e da falta de pré-requisitos dos alunos ele apreendeu a existência de diferentes motivações, interesses, estilos de aprendizagem, entre tantas outras percepções que não foram relatadas acima.
UE SE PODE FAZER?
QUE SE PODE FAZER?

Flávio tem razão: a situação é desesperadora. Com tantas classes, tantos diários de classe, tarjetas, correção de provas e reuniões, não há tempo nem condições para atender cada aluno individualmente. A primeira solução seria a redução do número de classes em que ele dá aulas (lógico com o mesmo salário), da papelada que se tem que apresentar e do número de alunos em sala de aula. Infelizmente, resolver a situação desta forma não está ao alcance de Flávio. Cruzar os braços? Não está de acordo com os princípios e a compreensão que Flávio tem do que é ser professor.
Mas, dentro da sala de aula, Flávio pode trabalhar de outro modo. Pode trabalhar com a proposta de ensinar a turma toda, independentemente das diferenças de cada um dos alunos. Bem, quem leu o texto até aqui deve estar pensando: Mas não é nada disso. Que tal ler o texto abaixo?

UMA ESCOLA DE QUALIDADE PARA TODOS OS ALUNOS

A sala de aula é o grande termômetro pelo qual se mede o grau de febre das mudanças educacionais e é nesse micro espaço que as reformas verdadeiramente se efetivam ou fracassam. Embora a palavra de ordem seja reformar o nosso ensino, em todos os seus níveis, o que verificamos quase sempre é que ainda predominam formas de organização do trabalho escolar que não se alinham na direção de uma escola de qualidade para todos os alunos. Se quisermos, de fato, reformar o ensino, a questão central a nosso ver é: como criar contextos educacionais capazes de ensinar todos os alunos? Outras interrogações derivam desta questão principal, tais como: que práticas de ensino ajudam os professores a ensinar todos os alunos de uma mesma turma, atingindo a todos, apesar de suas diferenças? De que qualidade e de que tipo de escolas está se falando, quando nos referimos a essas reformas? Neste texto vamos discutir essas questões, em torno das quais gravitam inúmeras propostas de renovação do ensino.

RECRIAR O MODELO EDUCATIVO

Superar o sistema tradicional de ensinar e de aprender é um propósito que temos de efetivar urgentemente, nas salas de aula. Recriar o modelo educativo refere-se primeiramente ao que ensinamos aos alunos e a como os ensinamos. Recriar esse modelo tem a ver com o que entendemos como qualidade de ensino. Há tempos que qualidade de ensino significa alunos com cabeças cheias de datas, fórmulas, conceitos, todos justapostos, lineares, fragmentados, enfim, o reinado das disciplinas estáticas e com muito, muito conteúdo.
Escolas consideradas de qualidade ainda são as que centram a aprendizagem no conteúdo e que avaliam os alunos, quantificando respostas padrão Seus métodos e práticas preconizam a exposição oral, a repetição, a memorização, os treinamentos, o livresco, a negação do valor do erro. São aquelas escolas que estão sempre preparando o aluno para o futuro: seja este a próxima série a ser cursada, o nível de escolaridade posterior, o exame vestibular!
Pensamos que uma escola se distingue por um ensino de qualidade, capaz de formar dentro dos padrões requeridos por uma sociedade mais evoluída e humanitária, quando promove a interatividade entre os alunos, entre as disciplinas curriculares, entre a escola e seu entorno, entre as famílias e o projeto escolar. Em suas práticas e métodos predominam as co-autorias de saber, a experimentação, a cooperação, protagonizadas por alunos e professores, pais e comunidade. Nessas escolas o que conta é o que os alunos são capazes de aprender hoje e o que podemos lhes oferecer para que se desenvolvam em um ambiente rico e verdadeiramente estimulador de suas potencialidades. Em uma palavra, uma escola de qualidade é um espaço educativo de construção de personalidades humanas, autônomas, críticas, uma instituição em que todas as crianças aprendem a ser pessoas.
Nesses ambientes educativos ensinam-se os alunos a valorizar a diferença, pela convivência com seus pares, pelo exemplo dos professores, pelo ensino ministrado nas salas de aula, pelo clima sócio-afetivo das relações estabelecidas em toda a comunidade escolar - sem tensões competitivas, solidário, participativo, colaborativo. Escolas assim definidas são contextos educacionais capazes de ensinar todos, numa mesma turma.

ENSINAR A TURMA TODA SEM EXCLUSÕES

Para ensinar a turma toda, parte-se da idéia de que as crianças sempre sabem alguma coisa, de que todo educando pode aprender, mas a seu modo e a seu ritmo e de que o professor não deve desistir, mas nutrir uma elevada expectativa em relação à capacidade de seus alunos conseguirem vencer os obstáculos escolares, apoiando-os na remoção das barreiras os impedem de aprender. Entende-se que o sucesso da aprendizagem tem muito a ver com a exploração dos talentos de cada um e que a aprendizagem centrada nas possibilidades e não nas dificuldades dos alunos é uma abordagem efetiva. Em outras palavras, a proposta de se ensinar a turma toda, independentemente das diferenças de cada um dos alunos, implica a passagem de um ensino transmissivo para uma pedagogia ativa, dialógica, interativa, conexional, que se contrapõe a toda e qualquer visão individualizada, hierárquica do saber.
Para se ensinar a turma toda temos de propor atividades abertas, diversificadas, isto é, atividades que possam ser abordadas por diferentes níveis de compreensão e de desempenho dos alunos e em que não se destaquem os que sabem mais ou os que sabem menos, pois tudo o que essas atividades propõem pode ser disposto, segundo as possibilidades e interesses dos alunos que optaram por desenvolvê-las. Debates, pesquisas, registros escritos, falados, observação; vivências são processos pedagógicos indicados para realizar essas atividades, além, evidentemente, dos conteúdos das disciplinas, que vão sendo chamados espontaneamente a esclarecer os assuntos em estudo.
A avaliação do desenvolvimento dos alunos também muda, por coerência com a prática referida anteriormente. Trata-se de uma análise do percurso de cada estudante, do ponto de vista da evolução de suas competências ao resolver problemas de toda ordem e de seus progressos na organização do trabalho escolar; no tratamento das informações e na participação na vida social da escola.
Criar contextos educacionais capazes de ensinar a todos os alunos demanda uma reorganização do trabalho escolar. Tais contextos diferem radicalmente do que é proposto pedagogicamente para atender às especificidades dos educandos que não conseguem acompanhar seus colegas de turma, por problemas de toda ordem - da deficiência mental a outras dificuldades de ordem relacional, motivacional, cultural. Sugerem-se nestes casos as adaptações de currículos, a facilitação das atividades escolares, além dos programas para reforçar as aprendizagens ou mesmo acelerá-las, em casos de maior defasagem idade/séries escolares.
A possibilidade de se ensinar a turma toda, sem discriminações e sem adaptações pré definidas de métodos e práticas especializadas de ensino advém, portanto, de uma reestruturação do projeto pedagógico-escolar como um todo e das reformulações que esse novo projeto exige da prática de ensino, para que esta se ajuste a novos parâmetros de ação educativa.
Enquanto os professores, persistirem em:
 - propor trabalhos coletivos, que nada mais são do que atividades individuais feitas ao mesmo tempo pela turma - ensinar com ênfase nos conteúdos programáticos da série;
 - adotar o livro didático, como ferramenta exclusiva de orientação dos programas de ensino;
 - servir-se da folha mimeografada ou xerocada para que todos os alunos a preencham ao mesmo tempo, respondendo às mesmas perguntas, com as mesmas respostas;
 - propor projetos de trabalho totalmente desvinculados das experiências e do interesse dos alunos, que só servem para demonstrar uma falsa adesão do professor às inovações;
 - organizar de modo fragmentado o emprego do tempo do dia letivo para apresentar o conteúdo estanque desta ou daquela disciplina e outros expedientes de rotina das salas de aula;
- considerar a prova final, como decisiva na avaliação do rendimento escolar do aluno.
 Não teremos condições de ensinar a turma toda, reconhecendo as diferenças na escola. Estas práticas pedagógicas configuram um ensino para alguns alunos. E para alguns, em alguns momentos, algumas disciplinas, atividades e situações de sala de aula. A exclusão então se manifesta amplamente, atingindo a todos os alunos, em um ou em outro momento do dia escolar, porque sempre existem os que não aceitam deliberadamente uma proposta de trabalho escolar descontextualizada, sem sentido e atrativos intelectuais, porque não desafia, não atende a motivações pessoais. Essas atividades servem para gerar indisciplina, competição, discriminação, preconceitos e para categorizar os bons e os maus alunos, por critérios infundados e irresponsáveis.
O professor que ensina a turma toda compartilha com seus alunos a autoria dos conhecimentos produzidos em uma aula; trata-se de um profissional que reúne humildade com empenho e competência para ensinar, pois o falar e o ditar não são mais os seus recursos didático-pedagógicos básicos. O ensino expositivo não cabe nas salas de aula em que todos interagem e participam ativamente da construção de idéias, conceitos, sentimentos, valores.
Um ponto crucial do ensinar a turma toda é reconhecer o outro em sua inteligência e valorizá-lo, de acordo com seus saberes e com a sua identidade sócio-cultural. Sem estabelecer uma referência, mas investindo nas diferenças e na riqueza de um ambiente que confronta significados, desejos, experiências, o professor deve garantir a liberdade e a diversidade das opiniões dos alunos e nesse sentido ele é obrigado a abandonar crenças e comportamentos que negam ao aluno a possibilidade de aprender a partir do que sabe e chegar até onde é capaz de progredir.
O nosso desafio como educadores é reunir alunos de diferentes níveis, diante de uma situação de ensino, em grupos desiguais, pois assim é que se passa na vida e é assim que a escola deve ensinar a ter sucesso na vida. Temos, pois de desconfiar das pedagogias que programam dispositivos e que se nutrem de bons propósitos de ensinar, de preparar para a vida, mas que favorecem ativamente os desfavorecidos. Ser competente na escola e na vida depende de tempo, e esse tempo é contado desde cedo, quando, nas salas de aula, construímos conhecimento e aprendemos a mobilizá-lo em situações as mais diferentes, que exigem transposições entre o que é aprendido e o que precisa ser resolvido com sucesso e na desigualdade dos níveis, nas diferenças de opiniões, de enfoques, de humores, de sentimentos.
Essa transposição e a construção de competências, entendida como nos define Perrenoud (1999): (p.7) tem seu cenário ideal na escola que repete a vida, tal como ela é.


Referências bibliográficas

FREIRE, Paulo. Pedagogia do oprimido. São Paulo: Paz e Terra, 1978.
PERRENOUD, Philippe. Construir as competências desde a escola; trad. Bruno Charles Magne. Porto Alegre: Artes Médicas Sul, 1999.
Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) - Faculdade de Educação - Departamento de Metodologia de Ensino Laboratório de Estudos e Pesquisas em Ensino e Diversidade - LEPED/Unicamp.

Vera Lúcia Camara Zacharias é mestre em Educação, Pedagoga, consultora educacional, assessora diversas instituições, profere palestras e cursos, criou e é diretora do CRE.