sábado, 24 de agosto de 2013

A FORMAÇÃO CONTINUADA DO PROFESSOR E O PROCESSO ENSINO-APRENDIZAGEM



O educador deve sempre buscar apreender como a prática pedagógica se desenvolve no contexto escolar, tentando desvendar as relações professor-aluno, suas consequências para o sucesso do processo ensino-aprendizagem e as possíveis causas do fracasso escolar. Tendo-se como referencial teórico as contribuições de educadores e estudiosos que se dedicaram à pesquisa de propostas educacionais voltadas para o desenvolvimento da criança e do adolescente e o sucesso educacional. Também as instituições devem buscar nas recomendações quanto às implicações da gestão escolar, verificando atenção especial ao professor, reavaliando suas funções e compromissos e possibilitando sua orientação por meio de um processo de formação contínua em serviço, privilegiando a relação teoria-prática e o desenvolvimento harmonioso do educando e o sucesso do processo ensino-aprendizagem.
O Processo de Formação Continuada se inicia com a conscientização de que a tarefa fundamental do educador é a formação do cidadão, procurando resolver com competência seus próprios problemas e buscando saídas para os problemas educacionais. A tarefa mais importante do trabalho pedagógico consiste em proporcionar à criança e ao adolescente oportunidades para encontrar sua identidade. Os professores constituem figura importante no processo de identificação da criança e do adolescente com o adulto, oferecendo-lhe oportunidades para essa identificação, vivendo em sua presença sua identidade pessoal de educador.
Schraml (1968) questiona a identidade do professor e a força de sua influência no desenvolvimento do aluno, assim como o compromisso das instituições formadoras de educadores, responsáveis pela orientação de sua atividade profissional, levando-o ao contato com seres em formação.
Questiona sobre as razões que motivaram o professor para o campo educacional, as alegrias do magistério, a preocupação com a organização de sua própria existência pessoal e a busca de conhecimentos proporcionados pela educação. Chama a atenção para a importância das compensações e frustrações relacionadas às expectativas quanto a seu desempenho profissional, lembrando que a identidade profissional dá a segurança indispensável para que seja capaz de transmitir segurança ao educando.
Ressalta a necessidade de maior cuidado quanto à seleção e orientação dos profissionais responsáveis pela educação, promovendo o autoconhecimento e uma melhor qualificação dos educadores.
O grau de satisfação ou insatisfação do docente, suas expectativas e o tipo de interações que mantém com o educando podem contribuir de maneira positiva ou negativa, tanto no desempenho escolar, quanto no desenvolvimento psicoemocional e social do aluno.
O professor tem de estar consciente de que não basta uma boa proposta pedagógica. Deve estar atento aos valores que passa aos alunos, permeado por suas relações e atitudes, pois elas são assimiladas facilmente e têm uma força muito grande na formação do educando e no sucesso da aprendizagem. Deve ter consciência dos fatores de ordem pessoal que atuam como forças desencadeadoras do processo de ensinar e aprender, permeados pelas interações afetivas e cognitivas nas relações professor-aluno, exigindo que ele se assuma como principal responsável pelo sucesso desse processo.
Meirieu (1998, p. 80) aprofunda a reflexão sobre o ato da aprendizagem e estabelece referências a partir das quais o professor poderá elaborar regular e avaliar sua ação pedagógica.    Analisa o “triângulo pedagógico: educando-saber-educador” e a relação pedagógica, racionalização didática e estratégias individuais de aprendizagem, no processo de ensinar e aprender. Lembra que aprendizagens significativas vão permitir ao aluno construir seus próprios mapas de conhecimento e verdades, a partir de suas vivências.
A cada dia se valoriza mais o caráter construtivo do processo ensino-aprendizagem, priorizando o aluno capaz de selecionar, assimilar, processar e interpretar, conferindo significado a sua aprendizagem. Não se concebe mais a figura do professor e do aluno como simples transmissor e receptor de conhecimentos. Valorizam-se os processos de interação professor-aluno, desencadeando e promovendo a aprendizagem.
O ato educacional implica uma série de decisões sobre o que o educando tem que aprender e sobre as condições oferecidas pelo professor para que o aluno interaja com os conteúdos do ensino.
Coll e Solé (1996, p. 294) alertam para a complexidade da sala de aula com sua realidade permeada por conhecimentos, habilidades, valores e expectativas de seus atores, afirmando que “a aula configura um espaço comunicativo regido por uma série de regras cujo respeito permite que os participantes, o professor e os alunos possam comunicar-se e alcançar os objetivos a que se propõem”.
O processo de ensino-aprendizagem implica a interação de três aspectos: o aluno que busca aprender, o objeto do conhecimento e o professor que interage, buscando favorecer a aprendizagem.
O professor é o orientador, o coordenador e o facilitador do processo de ensino-aprendizagem. Para que sua orientação influa sobre os processos de construção do conhecimento, deve estar atento aos mecanismos das relações interpessoais nas interações com o educando, sem perder de vista que a ajuda pedagógica deve adequar-se às necessidades e características de seus alunos. Sua intervenção pedagógica deve contribuir para que o aluno, frente às motivações do contexto educacional, desenvolva sua capacidade de realizar aprendizagens significativas, aprendendo a aprender e construindo seus conhecimentos.
Delors (2001, p. 90) alerta quanto à complexidade da missão educacional no mundo atual, definindo novas políticas educacionais e organizando-se em tomo de aprendizagens significativas que, ao longo da vida, se constituirão os pilares do conhecimento: “aprender a conhecer, aprender a fazer, aprender a viver juntos e aprender a ser”, garantindo que a educação propicie “a descoberta e o fortalecimento do potencial criativo, revelando o tesouro escondido em cada um de nós”.
Evidencia-se, nesse contexto, a necessidade de se dedicar atenção especial à orientação dos professores, por meio de cursos de formação que priorizem a relação teoria-prática, num espaço de construção coletiva de conhecimento, possibilitando o desenvolvimento de competências necessárias a sua atuação profissional, com vistas a favorecer o desenvolvimento integral do educando e o sucesso do processo ensino-aprendizagem.
Os anos 90 e a nova LDB 9394/96 situam a escola no centro dos debates sobre a educação, buscando compreender sua real função social, sua política educacional e a importância do trabalho pedagógico na consecução de seus objetivos, garantindo o sucesso do processo educacional (BRASIL, 1996).
Tendo em vista a consecução dos objetivos educacionais e o sucesso dos projetos pedagógicos, torna-se de fundamental importância a promoção da competência política e técnica de todos os autores do processo educacional, em especial do professor, contribuindo para a melhoria contínua das condições técnicas, organizacionais e humanas. Para que isso aconteça deve-se propiciar a formação continuada do educador, em consonância com as necessidades da organização escolar. O desencadeamento de um processo de formação contínua dos professores em serviço, possibilitando-lhes condições para refletirem sobre sua prática, ajudando-os a compreender o contexto de sua ação docente, buscando vislumbrar a importância de seu papel como educadores, pode mudar a ação docente, levando a práticas comprometidas com os processos de tomada de decisão e de produção do conhecimento, com a realidade dos alunos, com a melhoria do processo ensino-aprendizagem e com a participação efetiva na formação integral do educando e o desenvolvimento de competências pedagógicas necessárias a sua atuação profissional, com vistas a favorecer o desenvolvimento harmonioso do educando e o sucesso do processo ensino-aprendizagem.
Finalmente o educador deve ficar em alerta quanto à necessidade de se repensar o trabalho didático e as relações professor-aluno, assim como propiciar o desenvolvimento e aperfeiçoamento profissional, no próprio contexto educacional, envolvendo todos os elementos responsáveis pelo processo. Deve acreditar que a mudança não depende apenas da conscientização de si mesmo, mas principalmente do apoio técnico, pedagógico e administrativo, numa constante reavaliação e reformulação da prática educacional, buscando significado para seu ser e seu fazer.
O professor deve ter a preocupação constante de atualizar-se, procedendo a uma revisão crítica de sua proposta pedagógica e de sua atuação, possibilitando aprendizagens significativas, favorecendo o desenvolvimento afetivo cognitivo e o sucesso do processo ensino-aprendizagem.
Portanto, as instituições devem promover o desenvolvimento desse professor, orientando-o e assistindo-o na organização de um ambiente escolar e no processo ensino-aprendizagem significativo para o educando. Assim, permitirá a formação de jovens que pensem, sintam e atribuam valores, como indivíduos criativos e produtivos, conscientes de seu próprio valor pessoal, interessados na condição humana, capazes de idealizar e vislumbrar um melhor, do qual possam fazer parte.

Referências

COLL; SOLÉ. A interação professor/aluno no processo ensino e aprendizagem. in: COLL, C.,
PALÁCIOS, J. E MARCHESI, A. Desenvolvimento psicológico e educação. Porto Alegre: Artes
Médicas, 1986 (Coleção Psicologia e Educação).
DELORS, J. Educação: um tesouro a descobrir. São Paulo: Cortez, 2001.
MEIRIEU, P. Aprender... Sim, mas como? Porto Alegre: Artmed, 1998.
SCHRAML, Walter J. A higiene psíquica do pedagogo. In: Introdução à psicologia profunda para
educadores. São Paulo: EPU, 1976.

quinta-feira, 22 de agosto de 2013

A INTEGRAÇÃO DAS TECNOLOGIAS NA EDUCAÇÃO

 

A digitalização permite registrar, editar, combinar, manipular toda e qualquer informação, por qualquer meio, em qualquer lugar, a qualquer tempo. A digitalização traz a multiplicação de possibilidades de escolha, de interação. A mobilidade e a virtualização nos libertam dos espaços e tempos rígidos, previsíveis, determinados. As tecnologias que num primeiro momento são utilizadas de forma separada – computador, celular, Internet, mp3, câmera digital – e caminham na direção da convergência, da integração, dos equipamentos multifuncionais que agregam valor. 
O computador continua, mas ligado à internet, à câmera digital, ao celular, ao mp3, principalmente nos pockets ou computadores de mão. O telefone celular é a tecnologia que atualmente mais agrega valor: é wireless (sem fio) e rapidamente incorporou o acesso à Internet, à foto digital, aos programas de comunicação (voz, TV), ao entretenimento (jogos, música-mp3) e outros serviços.
Estas tecnologias começam a afetar profundamente a educação. Esta sempre esteve e continua presa a lugares e tempos determinados: escola, salas de aula, calendário escolar, grade curricular. Há vinte anos, para aprender oficialmente, tínhamos que ir a uma escola. E hoje? Continuamos, na maioria das situações, indo ao mesmo lugar, obrigatoriamente, para aprender. Há mudanças, mas são pequenas, ínfimas, diante do peso da organização escolar como local e tempo fixos, programados, oficiais de aprendizagem.
As tecnologias chegaram à escola, mas estas sempre privilegiaram mais o controle a modernização da infraestrutura e a gestão do que a mudança. Os programas de gestão administrativa estão mais desenvolvidos do que os voltados à aprendizagem. Há avanços na virtualização da aprendizagem, mas só conseguem arranhar superficialmente a estrutura pesada em que estão estruturados os vários níveis de ensino. Apesar da resistência institucional, as pressões pelas mudanças são cada vez mais fortes.
 As empresas estão muito ativas na educação on-line e buscam nas universidades mais agilidade, flexibilização e rapidez na oferta de educação continuada. Os avanços na educação à distância com a LDB e a Internet estão sendo notáveis. A LDB legalizou a educação à distância e a Internet lhe tirou o ar de isolamento, de atraso, de ensino de segunda classe. A interconectividade que a Internet e as redes desenvolveram nestes últimos anos está começando a revolucionar a forma de ensinar e aprender.
As redes, principalmente a Internet, estão começando a provocar mudanças profundas na educação presencial e a distância. Na presencial, desenraizam o conceito de ensino-aprendizagem localizado e temporalizado. Podemos aprender desde vários lugares, ao mesmo tempo, on e off line, juntos e separados. Como nos bancos, temos nossa agência (escola) que é nosso ponto de referência; só que agora não precisamos ir até lá o tempo todo para poder aprender. As redes também estão provocando mudanças profundas na educação à distância. Antes a EAD era uma atividade muito solitária e exigia muito autodisciplina. Agora com as redes a EAD continua como uma atividade individual, combinada com a possibilidade de comunicação instantânea, de criar grupos de aprendizagem, integrando a aprendizagem pessoal com a grupal. A educação presencial está incorporando tecnologias, funções, atividades que eram típicas da educação à distância, e a EAD está descobrindo que pode ensinar de forma menos individualista, mantendo um equilíbrio entre a flexibilidade e a interação.
Alguns problemas na integração das tecnologias na educação
A escola é uma instituição mais tradicional que inovadora. A cultura escolar tem resistido bravamente às mudanças. Os modelos de ensino focados no professor continuam predominando, apesar dos avanços teóricos em busca de mudanças do foco do ensino para o de aprendizagem. Tudo isto nos mostra que não será fácil mudar esta cultura escolar tradicional, que as inovações serão mais lentas, que muitas instituições reproduzirão no virtual o modelo centralizador no conteúdo e no professor do ensino presencial.
Com os processos convencionais de ensino e com a atual dispersão da atenção da vida urbana, fica muito difícil a autonomia, a organização pessoal, indispensáveis para os processos de aprendizagem à distância. O aluno desorganizado poderá deixar passar o tempo adequado para cada atividade, discussão, produção e poderá sentir dificuldade em acompanhar o ritmo de um curso. Isso atrapalhará sua motivação, sua própria aprendizagem e a do grupo, o que criará tensão ou indiferença. Alunos assim, aos poucos, poderão deixar de participar, de produzir e muitos terão dificuldade, à distância, de retomar a motivação, o entusiasmo pelo curso. No presencial, uma conversa dos colegas mais próximos ou do professor poderá ajudar a que queiram voltar a participar do curso. À distância será possível, mas não fácil. Os alunos estão prontos para a multimídia, os professores, em geral, não. Os professores sentem cada vez mais claro o descompasso no domínio das tecnologias e, em geral, tentam segurar o máximo que podem, fazendo pequenas concessões, sem mudar o essencial. Creio que muitos professores têm medo de revelar sua dificuldade diante do aluno. Por isso e pelo hábito mantêm uma estrutura repressiva, controladora, repetidora. Os professores percebem que precisam mudar, mas não sabem bem como fazê-lo e não estão preparados para experimentar com segurança. Muitas instituições também exigem mudanças dos professores sem dar-lhes condições para que eles as efetuem.
Frequentemente algumas organizações introduzem computadores, conectam as escolas com a Internet e esperam que só isso melhore os problemas do ensino. Os administradores se frustram ao ver que tanto esforço e dinheiro empatados não se traduzem em mudanças significativas nas aulas e nas atitudes do corpo docente. A maior parte dos cursos presenciais e on-line continua focada no conteúdo, focada na informação, no professor, no aluno individualmente e na interação com o professor/tutor. Convém que os cursos hoje – principalmente os de formação – sejam focados na construção do conhecimento e na interação; no equilíbrio entre o individual e o grupal, entre conteúdo e interação (aprendizagem cooperativa), um conteúdo em parte preparado e em parte construído ao longo do curso. É difícil manter a motivação no presencial e muito mais no virtual, se não envolvermos os alunos em processos participativos, afetivos, que inspirem confiança. Os cursos que se limitam à transmissão de informação, de conteúdo, mesmo que estejam brilhantemente produzidos, correm o risco da desmotivação em longo prazo e, principalmente, de que a aprendizagem seja só teórica, insuficiente para dar conta da relação teoria/prática.
Em sala de aula, se estivermos atentos, podemos mais facilmente obter feedback dos problemas que acontecem e procurar dialogar ou encontrar novas estratégias pedagógicas. No virtual, o aluno está mais distante, normalmente só acessível por e-mail, que é frio, não imediato, ou por um telefonema eventual, que embora seja mais direto, num curso à distância encarece o custo final. Mesmo com tecnologias de ponta, ainda temos grandes dificuldades no gerenciamento emocional, tanto no pessoal como no organizacional, o que dificulta o aprendizado rápido. As mudanças na educação dependem, mais do que das novas tecnologias, de termos educadores, gestores e alunos maduros intelectual, emocional e eticamente; pessoas curiosas, entusiasmadas, abertas, que saibam motivar e dialogar; pessoas com as quais valha a pena entrar em contato, porque dele saímos enriquecidos. São poucos os educadores que integram teoria e prática e que aproximam o pensar do viver. Os educadores marcantes atraem não só pelas suas ideias, mas pelo contato pessoal. Transmitem bondade e competência, tanto no plano pessoal, familiar como no social, dentro e fora da aula, no presencial ou no virtual. Há sempre algo surpreendente, diferente no que dizem, nas relações que estabelecem, na sua forma de olhar, na forma de comunicar-se, de agir. E eles, numa sociedade cada vez mais complexa e virtual, se tornarão referências necessárias.
Especialista em projetos inovadores na educação presencial e a distância